Eu, você e o Rio – Cínthia Klumpp

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O problema todo é que conheci o Rio com você. Se tivesse ido ao Rio criancinha passear de bondinho, pegar uma praia; ou mais moça, a namorar nos bares da Lapa e desfilar nos carnavais de Santa Tereza, tudo teria sido diferente: quando o avião pousasse e aquele cheiro de Rio começasse a surgir, eu teria só saudades da molecagem ensolarada, toda recortada por aquelas montanhas. Mas não. A porta da aeronave abre, aquele calor-Rio sacode meu corpo e traz você de volta pra cena, como um fantasma escondido atrás das quinas dos meus pensamentos guardados. E, então, estamos eu, você e o Rio, nós três de novo.

Você me obriga a voltar naquele restaurante abafado só pra comer um arroz com lula que nem é tão bom assim; me faz subir a escadaria da lapa e tirar fotos em ângulos de bom humor; me faz ir até a vista chinesa e fingir que sou uma Helena do Manoel Carlos, interpretando os possíveis diálogos sobre o nosso fim. E aí você me cansa e me leva de volta pro hotel, onde, sozinhos, você se configura em ausência doída, em vazio que tira a pressão dos meus pulmões, em massa de tristeza pura, que pesa dentro da gente e me faz deitar na cama, me impedindo de continuar o dia. Fecho o olho e ouço você falar, daquele jeito que a boca fica ensaiando pra soltar uma palavra, que sai toda atrasada, construindo um sotaque só seu. “Levanta daí”.

E eu vou levantar mesmo. Vou tomar banho, decidida a me vingar, te expulsando aos poucos de dentro de mim, colocando um rock que você não gosta para tocar, sentando com a toalha molhada em cima da cama pra te irritar, vestindo a roupa que você nunca elogiou e me maquiando, mais do que o necessário. Pego um taxi e digo o nome do samba que tanto fomos juntos. E lá, lá eu vou encher a cara, vou dançar chamando a atenção, vou dar bola pra todos os caras que eu achar que devo iludir e lá, lá eu vou te esquecer, entre um sambinha e outro, entre um copo e outro, entre um homem e outro.

E, quando a festa estiver terminando, e eu me perceber sozinha, vou sair, cruzar a rua e dar de cara com a Urca, com a linda praia da Urca, onde vou sentar na muretinha, olhar as estrelas e, com sorte, haverá um grupo de pessoas dançando e cantando pra Iemanjá. Você vai chegar devagarinho, sentar do meu lado, passar um braço sobre os meus ombros, e vai perdoar a minha traição por ter te deixado de lado por algumas horas. A gente vai sofrer juntos ali, eu, você e o Rio, relembrar umas bobagens, chorar um pouco e aí vai ser hora de ir embora e eu vou ter que me despedir. De novo. De vocês dois.

Cínthia Klummp nasceu em São Paulo-SP, em 1986. É formada em Comunicação Social, trabalha com marketing e faz mestrado em Comunicação e Semiótica. Tem contos publicados nos livros Palavras e Progresso (Litteris) e Edifício Marquês de Sade (Valer). Nas horas vagas mantém o blog sersentindo.blogspot.com.

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