Penico – Mário Rodrigues

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Esqueça Napoleão e Tiradentes. Esqueça Aron Ralston: alpinista que amputou o próprio braço. Esqueça Britney Spears. Meu exemplo de bravura foi Penico: meu galo de briga. A rinha arredondada ficava no cinema velho ao lado do cemitério. Os campeonatos aconteciam quinzenalmente. Eu depenava parte do pescoço de Penico e revelava o gogó de sola. Queimado pelo sol o pescoço ficava vermelho-escuro. Processo igual era dedicado à lateral das coxas. Havia três categorias. Na C – a batida – os galos brigavam com proteções de couro nas esporas. Era patético. Os galos saíam eriçados como galinhas. E só. Na B – a briga – os galos lutavam com suas esporas naturais. Afiadas pelos seus treinadores com lapiseiras. Mas podiam se quebrar fácil e perder a letalidade. Por fim: A Série A: A Rinha. A mais assassina. A mais desumana. A mais desgalinácea. Brigavam com esporas de aço inoxidável. Era nesta que Penico agia. Eu lustrava suas esporas. Presenciei grandes brigas. Sabia que uma espécie qualquer de arte superior estava sendo protagonizada quando Penico batia as asas – uma envergadura perfeita – e se suspendia no ar e juntava as duas esporas de metal contra a cabeça do adversário. Cristas eram esmagadas. Das coxas escorriam gotas de sangue. O chão da rinha avermelhava. Vi muitos donos de galo pedir-penico a Penico. Mas o galo bambo e derrotado era mais corajoso que seu dono e ia até o centro da rinha e não fugia. Penico mirava a cabeça do perdedor e suas esporas vazavam a cabeça do outro. O morto ainda levava umas bicadas na crista esfarelada. Mas um dia Penico morreu. Morreu de pé. Ele parou no centro da rinha no caminhar bambo de sua luta final. Não estava cabisbaixo. Olhou pros meus olhos e eu balancei a cabeça concordando. E ele se entregou às esporadas. Morreu como um galo. Bravo. Apanhei seu corpo. Paguei as apostas que perdi. Nenhum prejuízo. Penico me dera muitas vitórias. Coloquei a cabeça dele embaixo da asa esquerda. Fui pra casa. Coloquei-o na pia. Ele merecia uma última homenagem. Esquentei água. Depenei o que restava de pena em Penico. Coloquei-o pra cozinhar depois de tirar suas entranhas. A carne dele era escura e dura. Mas saborosa. Como deve ser a carne dos heróis.

Mário Rodrigues nasceu em Garanhuns-PE, em 1977. É professor e especialista em língua portuguesa pela UPE. Em 2010, sua coletânea de contos O vendedor de seriguelas recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura. Publicou os romances A curva secreta da linha reta (2011) e Brazil, 2014 (2012), ambos pela u-Carbureto.

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Sobre o autor

Nasceu em Garanhuns-PE, em 1977. Especialista em língua portuguesa pela UPE e professor. Com o livro Receita para se fazer um monstro (Record) venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2016.

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