Sábado, dia 12 de junho – Nathalia Queiroz

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Bati de novo na porta do apartamento dele a procura de sexo. Já tínhamos transado umas duas vezes, sendo uma delas meio bêbada e a outra meio receosa. Mas, dessa vez bem decidida, bati na porta e ele foi logo abrindo, a gente se beijando, mais ou menos como das outras vezes sendo que, dessa vez, sem receio ou álcool, e sem nenhuma inibição. Naquela libido de pouca conversa, ele me levou direto para o quarto, nos jogamos na cama previamente desforrada, coisa de solteiros em fins de semana, e fizemos amor até a tarde ficar escura.

Já menos voluptuosos, permanecemos deitados olhando para o teto, nos fazendo carinhos despretensiosos, até que ele tentou conversar algo sobre o seu dia, sobre o meu dia, sobre como render essa noite de sábado, sobre música, política, planos, sobre como eu tinha sinais na pele, foram tantos ganchos de assuntos e praticamente nenhuma isca mordida.  Ele perguntou se não seria melhor eu passar ali a noite, e eu disse que, na verdade, eu já estava de saída, e ele foi fumar um cigarro.

Depois disso ele me levou até o portão do edifício. Nos demos um beijo tipo estalo. Tímido. Fui para casa para retornar ao apartamento dele uns sete dias depois. Bati na porta e ele já foi abrindo e me beijando, naquela libido de pouca conversa, ele me levando para o quarto de cama previamente desforrada, amor até a tarde ficar escura para então, já menos voluptuosos, ficarmos deitados olhando para o teto, carinho, tempo, qualquer assunto, um beijo tímido na saída… eu tinha perguntado, uma vez, se podia ligar sempre que quisesse e ele respondido para eu ligar também quando não quisesse, e foi quando ele começou a falar do seu dia, do meu dia, de que era sábado, e ai eu lembrei que, na verdade, eu já estava de saída e isso foi antes dele falar qualquer outra coisa.

Eu ligava para ele. Ligava pouco, mas ligava. Ele nunca respondia minhas mensagens. Mas era um doce quando estava comigo e um doce pela voz no telefone, numas conversas que nunca rendiam mais que cinco minutos e sempre terminavam comigo batendo na porta do apartamento dele, normalmente aos sábados, quase sempre nos fins de tarde.

E fomos nos repetindo desse jeito, ele insistindo cada vez menos em conversas, as vezes a gente rendendo a volúpia noite adentro, nem sempre com um beijo no portão, hora da saída, volta pra casa.

Aconteceu que eu já não ligava mais porque, aos sábados, fins de tarde, ele já me esperava no seu apartamento com a porta aberta, fazíamos amor de pouca conversa, contemplávamos o teto por alguns minutos.

Sábado passado, quando cheguei ao apartamento dele, ele me cumprimentou com um beijo na testa. Fui para o quarto deixar minha bolsa e deitei na larga cama desforrada, contemplando o teto enquanto esperava. Inutilmente.

Pus o rosto na sala e o vi sentado, na varanda, fumava. Cheguei de mansinho e lhe dei um beijo no pescoço. Ele me puxou uma cadeira, me deu um beijo tipo estalo e, depois de uns dois minutos, disse que tinha conseguido reduzir 5 cigarros dos seus 7 diários, restando somente um para o fim da tarde e outro para quando acordava.

Depois ele me disse que o motivo de ter alugado aquele apartamento era aquela árvore gigante na casa da frente, que deixava a rua com um ar tranquilo e que, todos os sábados, antes de eu chegar, ele me esperava ali onde estava, sentado, na varanda. Foi quando, como um ato corriqueiro, passou o braço sobre o meu ombro e ficamos ali, o fim de tarde todo, olhando ou a árvore ou a rua.

Nesse sábado dormimos juntos. Cama desarrumada. Um ou outro carinho despretensioso antes de fechar os olhos.

De manhã eu fiz umas torradas e ele suco de laranja.

Decidimos gastar o domingo vendo uns filmes que ele tinha baixado durante a semana, inclusive o novo de Polanski, que tinha acabado de entrar em cartaz. Mas, antes disso e depois do café, voltamos para o quarto e ficamos ali por algumas horas, discutindo coisas como o gosto esquisito dele por música gospel americana e essa minha mania de achar que Caetano combina com domingo de manhã.

Nathalia Queiroz nasceu em Recife-PE, em 1986. É designer por formação, desde sempre se mantém passeando por meios que de alguma forma a traduzam. Já teve textos publicados no Suplemento Pernambuco, integrou a Coletânea Antônio Maria de Crônicas (FCCR, 2012) e mantém o blog: nathaliaq.wordpress.com.

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