Seria um dia comum – André Balaio

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Osvaldo entrou no escritório preocupado. Havia contratos a fechar, reuniões a marcar, emails a responder. Seus funcionários já estavam todos lá, compenetrados. O engenheiro Norberto olhava cautelosamente uma planta baixa; o técnico Adolfo consultava atentamente uma norma; o orçamentista Mário preenchia cuidadosamente uma planilha; a secretária Carminha digitava metodicamente uma carta. Osvaldo preferiu não atrapalhá-los com perguntas ou comentários e atravessou o ambiente estreito onde se apertavam as escrivaninhas dos quatro colaboradores sem dar nem mesmo um bom dia. Chegou até a sala contígua com um largo sorriso de orgulho por ter uma firma tão produtiva. Era naquele segundo ambiente que o empresário tinha seu birô, a casamata de onde avistava e ouvia tudo o que se passava na sala maior, solução perfeita para a produtividade da equipe: todos vigiados, não perderiam tempo com conversa fiada.

A pequena empresa de projetos existia havia cinco anos, desde que Osvaldo perdera o emprego de gerente de engenharia em uma indústria de grande porte. Foi um período duro, de muito esforço e dedicação, até conseguir se firmar no mercado e conquistar uma carteira razoável de clientes. Um período sem férias ou mesmo descanso nos fins de semana. A família teve que entender e se conformar com as poucas horas de convivência. Afinal, tudo aquilo era para eles.

Às nove e meia, o telefone tocou insistentemente a ponto de quebrar a harmonia da sala. Carminha não viu alternativa a não ser interromper a sua atividade e atendê-lo. Mal disse alô e alguém começou a falar sem parar. A secretária arregalou os olhos e pôs a mão no peito.

– Não é possível! Isso é sério mesmo? Que tragédia, meu Deus!

Desligou e ficou um tempo olhando o nada. Finalmente explodiu em lágrimas e soluços incontidos.

– Gente, Doutor Osvaldo morreu! – disse com um fiapo de voz.

Os colegas foram da descrença ao desamparo. Mário abraçou a colega.

– Como foi? – gritou Adolfo, rosto suado e vermelho, olhos a ponto de pular de susto.

– Acidente de carro. Estava vindo para cá. Morreu na hora. O velório será no cemitério de Santo Amaro.

Seguiu-se um silêncio curto e doído, quebrado pela impaciência de Adolfo:

– O que vai ser da gente? Vamos ficar desempregados?

– Não há o que fazer agora. Paremos aqui – Norberto contemporizou. – Precisamos saber como a família agirá; se vai manter o escritório ou não. Alguém quer uma carona para o cemitério?

Desligaram os computadores, fecharam as gavetas, trancaram os armários, limparam as mesas de qualquer vestígio de vida, apagaram as luzes e saíram.

Em seu posto de observação, Osvaldo se impacientou. Ainda não tinham concluído o orçamento para uma licitação no dia seguinte, nem o projeto da reforma do prédio da Secretaria de Educação. Não lembravam que havia prazos a cumprir? Tentou gritar para voltarem ao trabalho. Ficou ali pensando nos compromissos, tentando estabelecer prioridades.

André Balaio nasceu no Recife-PE, em 1968. Tem contos publicados nos livros Histórias Medonhas d’O Recife Assombrado (2002) e Malassombramentos (2010). É roteirista de quadrinhos, músico, DJ e editor d’O Recife Assombrado (www.orecifeassombrado.com). Nas horas vagas, caça fantasmas e malassombros nas noites do velho Recife.

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