Desapego – Kelen Linck

0

No começo passei a conter todo impulso de carinho. Percebi que ela sofria com meu desinteresse e eu dissimulava qualquer vestígio de atenção. Fingia que não notava sua presença e não ouvia o que falava. Mal olhava na sua cara. Ela parecia um cachorrinho, sem dono e com medo. Ainda tinha ânimo para me fazer festa e se esforçava por me ver sorrir. Assistia passivo às suas tentativas de me reconquistar. Do alto da minha fria desatenção, via seu orgulho definhando, sua beleza morrendo, seus planos agonizando. Naquela noite que eu cheguei em casa e ela, sentada no chã, me olhou com aqueles olhos inchados de chorar, percebi que eu estava ficando bom naquilo. Virei as costas e saí de novo. Com o tempo, fui aprimorando minhas técnicas de desprezo e aos poucos ela ia ficando menor. Eu acordava no meio da noite só para me certificar de que não estava tocando nela enquanto dormia. A ideia de lhe dar a oportunidade de entender aquele deslize como um gesto de carinho me fazia passar o resto da noite em claro. Quase senti pena de vê-la tão fraca e só. Mas era assim que eu gostava dela. Fraca e só. Quando atingi a perfeição, ela foi embora. Deixou uma carta que não li para não estragar tudo no final.

Kelen Linck nasceu em Recife-PE, em 1976. É designer e firmou sua carreira também como ilustradora e artista plástica. Embora seu trabalho seja mais voltado às artes visuais, costuma ter a ousadia de brincar com as palavras no seu universo criativo. Seus textos são parte de suas obras e atribuem um sentido poético às suas pinturas.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!