Diz-que morre antes de chegar ao chão – Ludmila Rodrigues

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Até que o inimaginável: como se pula de uma janela? Talvez nenhuma morte assim tivesse sido tão premeditada. Mas, ali, madrugada, plano feito, faltou o trivial, o inimaginável. E depois de esperar o silêncio que só a madrugada, depois de carta e bilhete de despedida para alguns, ele não sabia como pular da janela. O mar embaixo era denso, completamente negro ainda. Mas isso era mais à esquerda; ele certamente cairia nas pedras. O parapeito da janela era branco: ou ia ou não ia. Sentou-se na tinta branca, pernas ainda viradas para sua sala. Silêncio. Agora, pernas já sacudindo no vento salgado, mãos trêmulas de, por ventura, soltarem os puxadores de metal. É preciso se acostumar. É preciso se acostumar, ele pensava. Corpo acostumado à madrugada, já era tempo, enfim. Deixo-me soltar, apenas. Sentia que precisava ser algo mais certeiro, aleijado ele não queria ser. Me jogo de cabeça, pensou. Diz-que se morre antes mesmo de chegar ao chão, é o que se comenta. Uma casa pequena lá adiante tinha uma luz acesa, muito simplória, a casa, que estariam fazendo àquela hora. De sua janela branca só via o vulto feliz de alguém na outra janela acesa, parecia que a pessoa dançava ou flutuava, certamente sorria. E não parava, alguém devia estar naquele mesmo cômodo, ela sorria e se movia doce, e tanto tempo ficou assim. Ele havia esquecido de que precisava pular a janela, a casa pequena mais parecia um farol naquela negrura do oceano, embora também estivesse sustentada nos rochedos. Deixo para amanhã, pensou. Volto calmamente à sala, bebo um pouco de vinho e também fico a dançar um pouco. Parece que foi na hora de trocar o lugar das pernas, as mãos também já deviam suar um pouco. Um senhor de cabelos grisalhos, levemente ensanguentado. Encontrado morto, às oito da manhã, nas pedras que levavam a um mar azul-claro vivíssimo.

Ludmila Rodrigues nasceu em Salvador-BA, em 1991. É estudante de Letras Vernáculas na UFBA e publicou O rosto na xícara (2012) e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes (2014). Mantém o blog http://ludmila-rodrigues.blogspot.com.br/

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