Sudário – Nathalie Lourenço

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A mãe não tirou a linha da boca para falar – É pra não costurar tua sorte, Rebeca – superstição de costureira.

– Não fica nervosa, Bequinha, você vai estar é linda.

– Eu sei. Eu sei, mã.

– Te juro. Benzadeus. Esse é o vestido mais lindo que eu fiz. Mais que o do casório da Danieli, que é toda metida a besta.

– Hahaha.

– Hahaha.

Rebeca apoiou a mão na parede, apavorada com a ideia de cair da bancada e ter que casar toda fodida amanhã. É claro que o vestido ia ficar lindo. Dentro da barra, a mãe costurou 3 imagens pequenininhas: São João, Santo Antônio e Nossa Senhora. Olhou para a filha sobre a bancada, o pensamento nu, fora do vestido, longe daquela sala.

– Não te preocupa. É normal dar frio na barriga…

– Deixa de ser tonta, Tilda. Ela tá preocupada é com o Vuco-vuco.

A tia, que estava concentrada pregando florezinhas no véu, soltou uma daquelas risadas que vinham ali de dentro, do fígado, do pâncreas, quem sabe de onde. Quando conseguiu parar, sorriu.

– Não é nada demais, meu anjo. Acaba rapidinho. Quase nem dói.

A noiva acenou para a tia, bem séria. Virou para a mãe poder alcançar o outro lado da barra, sentindo o gelado dos alfinetes segurando as rendas no lugar. Rebeca cresceu escutando que seu dom (era assim que a mãe chamava o hímen, para desgosto da filha e, provavelmente, da humanidade) devia ser guardado para seu marido, uma prova de lealdade a nosso senhor.

E ela cumpriu a promessa. Mas a verdade é que mesmo agora, na sala com duas senhorinhas de meia idade, ela molhava a calcinha só de pensar no dia seguinte. Não, ser devota não é  fácil hoje em dia, tão melhor seria chegar no dia do casório sem saber que existe pica, sem suar de roupa com o namorado, o raspar grosseiro dos jeans dele entre as pernas criando eletricidade no vestido de algodão. E então, divorciar os corpos e respirar fundo, por que Jesus tá olhando e essa xana ainda não mudou de nome no cartório.

O nome do inferno é internet. As pessoas disfarçam, criam sites, perfis de redes sociais, blogs, flogs, jogos, mas é tudo uma casquinha bem fina. Se você mergulhar mais que as canelas, já está no reino da putaria. Rebeca sofria a cada busca. Não importava o termo: a partir da terceira linha, ali estaria inescapável, hipnotizante, a foto de uma mulher sugando uma banana, um homem nu, um desenho japonês, seu corpo sendo invadido por tentáculos. Não, ser devota não é fácil quando o mundo esfrega na sua cara sem descanso nem piedade. Quando todo mundo está gozando. Menos você.

A mãe terminou a barra, e Rebeca tirou o vestido, os sapatos perfeitos, o sutiã tomara-que-caia que colocaria de novo no dia seguinte. Botou a calça jeans com pressa, rezando para ninguém ver o estado (líquido) da calcinha.

**

A música aumentou. Era a sua deixa. Deu o braço para o pai, orgulhoso no fraque, e começaram a descer por entre as fileiras, bancos e mais bancos de familiares, amigos, primas que já choravam. No fim do caminho, Samuel, de pé ao lado do altar.

Decidiram casar por tesão. Depois de 2 anos de namoro, Samuel já estava enlouquecendo. E ela também. Em poucos meses juntos, beijar era pouco, as mãos insistiam em subir por dentro da blusa, encontrar os mamilos de Rebeca, ajustar seu calor de acordo com aqueles botões. Agora, no dia que insistem ser o mais importante da sua vida, ela só queria pular direto para a sobremesa, escapar da festa, e sentir por dentro aquele pau que ela só segurou com muitas camadas de roupa a lhe proteger a santidade.

Pau nosso,

que estais nas calças,

espera só mais um pouquinho.

O padre deu um longo, longo sermão, como se pressentisse a pressa dos noivos. Agora, os sins trocados, as alianças escorregando de suor nos dedos, umas 5h de festa ainda os separavam da lua de mel.

A primeira valsa. Os ravioles de nozes com gorgonzola. As incontáveis marcas de batom das suas bochechas, suvenires de tias de segundo grau, amigas de avós, mães de amigas.

Pau nosso,

que estais nas calças,

espera só mais um pouquinho.

– Rebeca, o fotógrafo está chamando para o retrato com a família. Vem, vem!

– Tá, só vou buscar o Samuel, acho que vi ele por ali.

A foto, com todos os 4 irmãos, seus esposos, os sobrinhos, pais, primos e avós, ia ser na escadaria dupla, imponente do bufê. Rebeca ia puxando Samuel pela mão, mas parou. Era o primeiro minuto completo de solidão no meio da massa de parentes e conhecidos. Um beijo bastou de estopim, e logo o penteado alto estava se desmontando e as mãos morenas do marido lutando contra um exército de 45 botões.

Pau nosso que estais nas calças,

você vai ver o que eu faço contigo.

No corredor, passos se aproximavam – Mas onde que foi essa menina?

Fugiram. Samuel na frente, Rebeca tentando não denunciar a escapada com o barulho dos tacos sobre a pedra. Se enfiaram na primeira porta, quase sem ar e riram até os lados do corpo doerem. Ela fechou o trinco do depósito, os lábios dele já no pescoço, um botão, dois botões, e foda-se, quem tem tempo pra tanto botão, e subiu os tules da saia, moisés partindo um mar de branco.

Pau nosso

que estais em mim

santificado seja o troço enorme

seja feita tua vontade

assim na frente como atrás

o gozo de cada dia me dai hoje

não perdoai meus orifícios

enquanto não os tiver fodido.

Amém

O fotógrafo foi fumar lá fora, e uma meia hora depois surgiram os noivos, e foi preciso montar toda a família na escadaria de novo. A copeira encontrou no depósito um guardanapo com uma mancha leitosa que desenhava o rosto de Jesus. No dia seguinte, o guardanapo sudário saiu no jornal da cidade.

Disseram que foi milagre.

Nathalie Lourenço é paulista e paulistana desde 1984. Trabalha como redatora publicitária e teve textos publicados na coletânea Edifício Marquês de Sade e na Revista Parenteses. Escreve (ainda que raramente) no blog Sabedoria de Improviso (sabedoriadeimproviso.wordpress.com).

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