A sombra – Antonio Gueiros

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Ele entrou pelo portão principal do Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção, no bairro de Santo Amaro das Salinas. Era começo de tarde em Recife, o sol a castigar. A claridade ofuscava, o calor era sufocante, de dar calafrios. Não sabia para onde se dirigir. Na verdade, não queria chegar.

Passara a noite no hospital e na capela, a maior parte do tempo sozinho, acompanhado apenas do corpo do pai. Os irmãos chegaram pela manhã. Os seus amigos, antes dos irmãos. Nenhum amigo ou colega de seu pai comparecera.

Um conhecido do velho aparecera ainda no hospital. Rendeu os seus sentimentos e prontamente se identificou como representante de uma casa funerária. Ele acertou, em silêncio, as condições do serviço fúnebre sem dar atenção ao papa-defunto, que, irritante, falava como um corretor de imóveis canalha, “este aqui tem o melhor custo benefício”. Tinha repulsa às liturgias da morte e aos paramentos grosseiros das exéquias. Assinou o que precisava ser assinado, pagou, indiferente, o valor a ser pago.

Durante a breve cerimônia, o sacerdote se emocionou, apesar de não ter tido o privilégio de conhecer o falecido. A mãe, esposa por toda a vida, assistiu ao culto e foi para casa. Estava velha e doente. Alegou cansaço. Nunca chorou a morte do marido.

Ao passar pelo pórtico, ele parou. Quis ir embora. “Deixai aos mortos o enterrar os seus mortos”, repetiu algumas vezes para si. Engoliu seco, estava pálido, com suores frios.

Cuidara do pai durante o período inicial do internamento. Ouviu calado as reclamações do doente, que não era de se queixar quando sadio. Comovia-se com as indignações de alguém que fora resignado, feito pedra, a vida inteira; abalava-se em ver a dor de alguém que parecia insensível. Enxugava-lhe o suor, auxiliava-o em suas necessidades, asseava-o. Nestes momentos, o velho ficava completamente ausente. Em poucos dias, removeram-lhe, o moribundo, para a unidade intensiva, onde permaneceu de olhos semicerrados, com o corpo desejando a morte, mas sendo inutilmente animado pelas máquinas.

Caminhou lentamente pelo campo santo. Suportara, até ali, o hospital, os médicos, o velho praguejando, os planos de saúde, o velho ausente, o telefonema no início da madrugada, a funerária, o sacerdote. Faltava pouco.

Chegou à precária mesa de pedra onde repousava o caixão. Ali restavam os dois irmãos e poucos amigos do filho recém-chegado. Nada daquilo, exceto ele mesmo, era familiar ao pai, que cortara relações com os outros filhos havia muito e sempre ignorara os amigos do filho que restou. “Onde está a vida que perdemos ao viver?”, martelava em sua cabeça o verso do poeta cujo nome não conseguia lembrar.

Colocou-se o esquife sobre o combalido carro metálico de se transportar esquifes. Deu-se início o pequeno cortejo, por vielas estreitas margeadas por mausoléus extravagantes, de profundo mau gosto, até sepultura feita no barro seco.

O caixão foi depositado na cova. O filho estremeceu. A secura invadia-lhe o corpo, sentia-se árido como aquela terra, seco como o pai, feito pedra. Era órfão do pai que nunca chegou a ter.

Postou-se em frente à vala, aos pés do pai. O calor era insuportável. Estava ladeado pelos dois amigos mais chegados. Os demais se abrigavam debaixo de um oitizeiro a alguns metros.

O sol contra o seu corpo fazia sombra sobre o caixão. A sombra envolvia o pai no sepulcro. O último afago de uma vida sem afeto, um refrigério sobre o pai que sempre pareceu morto. O pai recebia o aconchego de quem jamais confortou.

A terra foi jogada sobre o caixão. A cova foi fechada. Os amigos se foram. Os irmãos já tinham ido. Ele ficou ali, sozinho, acompanhado apenas do corpo do pai, até o sol ceder, até a sombra se dissipar.

Antonio Gueiros nasceu em Recife-PE, no ano de 1981. É servidor público e bacharel em Direito. Teve um conto publicado no 7º Prêmio Maximiniano Campos (2011).

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