Dedicatória – Conrado Falbo

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quanto do que pensei mas não fiz

cabe em cada ação que finalmente viu a luz do dia?

 

quanto do meu não-fazer

ajuda a mover minha mão

na hora de empunhar vontades?

 

de vez em quando

o mundo não cabe nos meus olhos

 

de vez em quando

meus olhos são poços sem fundo

 

infinitos

da cor do escuro

onde mora tudo o que ainda não foi criado

 

de vez em quando

visito uma terra povoada pelos escombros

de todos os pensamentos que um dia abandonei

 

eles são muitos

 

alguns grandiosos

outros humildes

todos parte de mim

 

são minhas discretas profecias

o material que uso para construir futuros

 

rascunhos de vento sob asas

que acabaram abrindo outros sentidos

 

… tudo o que se vai sem ter vindo me interessa muito:

 

o quase dito

o que não chegou a ser esboço

a ideia decantada em inação

o desistido, antes mesmo de…

o silêncio pensando melhor

 

e além:

o que nem se transforma em memória

o que voa perto, mas não roça a superfície da consciência

 

o que às vezes nem eu sei

 

… aquilo que acontece sem ninguém ver

continua acontecido

em algum lugar

 

e não é menos real

por causa disso

 

dedico a tudo que eu não cheguei a fazer

tudo o que fiz

Conrado Falbo é artista, professor e pesquisador. Fez mestrado e doutorado em Teoria da Literatura com pesquisas sobre voz, corpo, palavra e performance. Deu aulas de literatura em algumas universidades e é artista ocupante do Coletivo Lugar Comum desde 2011.

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