Evolução – Thiago Corrêa

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Ele sabia que não conseguiria interromper o fluxo do tempo. No que dependesse dele, aquele ano nunca teria nem começado. Até tentou esconder a chave de Breguet, na esperança de que o domingo se prolongasse e o seu melhor amigo não precisasse ir ao colégio. Já na primeira semana de aula, ele o percebera cada vez mais ausente, com lições de casa que atrasavam as expedições no quintal. Era preciso agir rápido para evitar uma nova ruptura. Ele não gostava de mudanças, sentia-se bem na rotina. Por isso esperou o beijo de boa noite da mãe às 9 horas, aguardou a luz se apagar por baixo da porta às 10 horas e saiu na ponta dos pés em direção ao relógio.

Acordou com a mãe levantando pra trabalhar antes da aurora, depois observou o amigo sair cedo de casa com o patrão e voltar a tempo do almoço ser servido como todos os dias, apesar do relógio permanecer nas 8 horas e 32 minutos. Devolveu a chave de Breguet e passou a medir em minutos a espessura da rachadura que agora o separava do amigo. Quatro horas e meia por dia no colégio eram suficientes para que o amigo voltasse com um novo olhar. O que acontecia lá fora? Por que o amigo voltava diferente? Ele então passou a lançar perguntas na tentativa de acompanhar, mesmo que tardiamente, o amigo na expedição além quintal.

O muro que cercava a casa onde moravam se tornou um estímulo à curiosidade. Assim que o carro do patrão aparecia no portão, ele saía correndo em direção ao amigo com seu questionário. Uma ansiedade que era saciada com entusiasmo, debaixo da sombra das árvores do quintal. Pelos olhos do amigo, ele foi descobrindo as possibilidades de um mundo em que homens eram capazes de andar sobre o mar e transformar água em vinho, em que lagartas se transformavam em borboletas e máquinas eram enviadas ao espaço.

Até que um dia, o amigo voltou quieto para casa. Diante da insistência das perguntas, descobriu que ele também estava prestes a fazer parte desse mundo extraordinário. O amigo contou que, na virada do ano, ele se transformaria num macaco. Não sabia por que nem como, mas quando o relógio anunciasse a meia-noite, ele viraria um macaco. Ele, a mãe, o irmãozinho, o pai e até mesmo Pelé. Todos os negros seriam macacos. Naquela noite, ele se retraiu no colchão entre a cama da mãe e o berço do irmão, usando o lençol como um casulo à espera da metamorfose. Ao menos não se transformaria numa barata, como o homem do livro que o patrão contou à esposa. No dia seguinte, iniciou um novo hábito, aproveitando a ausência do patrão no escritório pela manhã para consultar os livros. Encontrou gravuras de lagartos gigantes, mulheres com rabo de peixe e homens de chifres com patas de cavalo. Também lembrou das histórias do avô em que homens viravam lobisomem na lua cheia, mas nunca ouvira falar em gente que se transformava em macaco.

Talvez fosse mentira do amigo. Invenção. Mas num mundo povoado por tantos mistérios, não lhe parecia impossível a metamorfose de pessoas em macacos. Não, não havia motivo para mentira, o amigo também ficara triste com a notícia. O desconhecido estava prestes a entrar em suas vidas. Para os dois, no entanto, o ano ainda parecia longo. Mantiveram os encontros na sombra das árvores do quintal, mas o extraordinário que brotava dos relatos do amigo agora falava de mudança, apontava para uma despedida. Como narrativas de suas próprias vidas, as histórias se moviam a partir de rupturas, de ameaças que geravam relações de ação e reação, perguntas e respostas, afeto e desconforto.

Se no início as perguntas que ele fazia serviam como uma ponte, pela qual o amigo cruzava para trazer notícias da sua expedição no colégio; aos poucos passaram a provocar risadas, virar anedotas durante as refeições. Enquanto a família do amigo ria na sala de jantar, ele se recolhia em silêncio na cozinha a cada estilhaço de “burro”, “analfabeto”, “macaco”, “coitado”, “filho da criada”. No fim do ano, a distância entre os dois podia ser medida em degraus. Nas férias, eles já não compartilharam a mesma cabana montada no quintal, o amigo permaneceu no primeiro andar e ele no quarto de empregada, ao lado da cozinha. O amigo transformara-se no filho do patrão, os convites ganharam tons de ordem e as brincadeiras de bang-bang viraram perseguições de bandeirante contra escravo.

Envolvido em pesadelos, adquiriu um aspecto sombrio, ressaltado a cada dia. Nem mesmo a história do nascimento de Cristo foi capaz de lhe dar esperança. Na noite de réveillon, os olhos fixos nos ponteiros sabiam que era inevitável, não havia salvação, dali em breve chegaria 1960 e nada mais seria igual. A festa ao seu redor se diluía como um emaranhado de sons, risadas e tilintar de taças de cristal, enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. As outras crianças brincavam com os presentes do Natal no quintal, enquanto ele permanecia como mais um móvel da sala, parado de frente para o relógio.

Vigiava o tempo como uma forma de marcar cada resquício de sua humanidade. Cada transformação era mensurada em segundos. Imaginou-se como um relógio, as engrenagens do corpo respondendo a estímulos do tempo, o coração como pêndulo, bombeando sangue para o giro das roldanas internas que desencadeavam movimentos na superfície, o crescimento das unhas, o surgimento dos pelos, o esticar dos ossos e cartilagens. Ele sabia que as mudanças operavam silenciosas sob a pele, invisíveis. Foi assim com a mãe, que de repente apareceu com uma jaca na barriga e três meses depois voltou do hospital com seu irmãozinho no colo. A experiência de acordar a cada três horas por conta do choro do bebê o fez rejeitar mudanças. Por ele, tudo continuaria igual. Desejava ser máquina para se manter indiferente ao tempo, um relógio no funcionamento regular de sessenta segundos por minuto, com o avanço circular dos ponteiros até o início de um novo e repetitivo ciclo a partir da chegada do ponteiro maior ao número 12.

 

Thiago Corrêa nasceu no em São Bernardo do Campo-SP, 1981, e mora no Recife. É jornalista e mestre em Teoria da Literatura. Tem contos publicados nos livros Recife Conta São João (2008), Possibilidades da fotografia contemporânea (2009), Tempo Bom (2010), Ficção em Pernambuco (2013), Inquebrável: Estelita para cima (2014). Edita a Revista Vacatussa.

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Sobre o autor

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