No fim – Débora Ferraz

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No fim da história eles ficam juntos. É isso que está escrito bem no topo da página, no começo do texto. Que ficam juntos. Ainda que, e isso vem logo em seguida, ainda que na verdade este ficar junto signifique que tenham que ficar muito sozinhos. Antes e rotineiramente. E ainda tem mais, é preciso dizer. Juntos são infelizes.

Sim, não é sempre. Mas, às vezes, são infelizes. Porque o ácido úrico deu meio alto nos exames, o médico proibiu um monte de coisa e ele teve que cortar a cerveja. E ela, que agora usa o cabelo bem mais curto, precisa, reiteradas vezes, tingir a raiz e retocar as tatuagens dos braços, das costas, dos tornozelos, que desbotam. Às vezes cansa. Ficam juntos, mas cansa.

Não que ele tenha retocado alguma coisa. Porque as tatuagens dele eram poucas, todas pretas… Essas merdas vão ficar feias de todo jeito, disse. Cabelo, então, nem pensar, homem vai pintando o cabelo e vai ficando aquelas costeletas acaju… É sua piada preferida: homens com cabelo acaju. Repete sempre. Sabe como é? Todo mundo tá vendo que o infeliz pinta o cabelo, mas não tem coragem de dizer que tá ridículo — Nunca foi do tipo reservado; puxava conversa com a senhora da cantina; agora conta piadas— E o sujeito, bem que desconfia que não ficou bem, mas sem ter certeza, fica disfarçando com cara de cachorro que mijou na sala.

Ela não gosta da piada por motivos óbvios. Já disse a ele, em casa, quando a sós: você sabe o que isso me lembra. Enfim, é mais um sinal do óbvio: ficaram juntos. Têm segredos compartilhados, dores compartilhadas.

Ele poderia resgatar, por sua vez, se lembrasse: Também não gostei quando você estava com aquela ideia maluca de encher o corpo inteiro com tatuagens feias, lembra disso? Puta merda. Aquilo quase separou a gente!, diria. Mas não diz porque não lembra mais. Não lembram. Ela, também, se lembrasse, diria: Não foi “quase”, Marcelo. Nós, realmente, nos separamos, naquela época. Você pegou suas coisas, saiu.

Porque era uma questão de espaço. O apartamento era pequeno demais para os dois.

Diriam se lembrassem. Mas não lembram. Agora, que há espaço de sobra. Agora, que vivem num apartamento de bom tamanho onde cabem as coisas dela, as coisas dele, as coisas dos dois. É isso, finalmente, está tudo bem. Podem ser infelizes. Podem brigar por causa das piadas e ela pode repetir pela milésima vez, que não. Não vai querer outro cachorro.

Tem isso: tiveram um cachorro. Viveu 12 anos. Morreu ano passado. Não foi fácil. E as piadas dele sempre pioram tudo. Me lembra a cara dele, tadinho. Ele fazia mesmo essa cara, quando fazia xixi na sala.

Só que pra entender melhor essa configuração é preciso voltar ao longínquo e passado ano de 2014. Quando estavam com seus trinta anos e quando o problema não eram as piadas, nem o ácido úrico, nem o retoque de tinta nos cabelos. Não estavam de luto por cão nenhum porque, naquela época, não havia um cão.

E é claro que se a história começa no fim, ela termina no começo. Ele precisou sair de casa. E deixou também uma historinha. Um texto truncado, mal-escrito, e que começava assim: no final, com eles ficando juntos. Mas aí, nesse ponto, tudo dependia, que ela concordasse. Quando chegasse em casa, naquele longínquo e passado ano de 2014, encontrasse o texto, lesse e concordasse. Certo. Precisamos de espaço. Um apartamento maior.

Porque se ela não concorda. Se diz que não. Que é inviável. Então voltamos ao mesmo futuro e não há marcas tristes na parede, porque não há parede. Não compram o apartamento e esse cachorro, que viveu 12 anos, nunca existiu.

E então ele entra no texto e diz: E seria uma pena porque era um cachorro ótimo! Invade o texto: Deixe-me falar um pouco dele. Ele tem um rabo que abana freneticamente, gosta de focinhar suas coisas na estante e, sempre, quando você chega, ele treme, uiva, se mija inteiro. É ótimo. E se você diz que não…

E se ela diz não. Então voltamos para o futuro. O apartamento está ocupado por um casal vulgar, desses que vão ao shopping no sábado e acabam separados. E Marcelo é só um cara que tomou a decisão errada.

E você? — diz o texto— O que aconteceu com você? Ele não sabe. Nesse futuro, ele não sabe. Não tem notícias dela há anos. Só teve uma vez a impressão de tê-la visto, na rua. As tatuagens… tem a impressão de ter reconhecido as tatuagens. Mas, então, ela entra no ônibus, o ônibus. É isso: mais um cara constrangedoramente correndo atrás de um ônibus que já partiu enquanto todos disfarçam o riso.

 

Débora Ferraz é escritora e jornalista. Seu primeiro romance, Enquanto Deus Não Está Olhando, foi vencedor da 10ª edição do Prêmio Sesc de Literatura. É autora ainda do livro de contos Os Anjos (2003). Seu conto O filhote de Terremoto, finalista do Prêmio Sesc Machado de Assis, foi adaptado para o curta-metragem Catástrofe (2013), dirigido pelo cineasta Gian Orsini. Trabalha atualmente em seu segundo romance e conclui o mestrado em Comunicação Social pela UFPB.

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