A infinita queda – João Paulo Parisio

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Estou caindo. Meu futuro se resume aos poucos segundos que me separam do chão. Pode parecer absurdo que eu sequer tenha chance de pensar, mas só o tempo coletivo é unânime. Quanto mais a queda se acelera de fora para dentro, mais se torna lenta de dentro para fora. Creio que seja devido a um efeito semelhante que os pacientes terminais recordam suas vidas inteiras um momento antes de expirar. Terei uma era inteira para compor um futuro alternativo para mim caso não tivesse caído, pois foi preciso que eu caísse para perceber o quanto o original era insensato. Digo que era porque toda mudança de curso transmuta automaticamente num passado fantasmático o futuro a que o rumo primário conduziria.

Tecerei este futuro hipotético com tamanho esmero que por fim me convencerei de que fui criado pela vida que criei, e então me debaterei em sua malha como na teia do destino, esquecido de que fui a aranha. E voltarei a cair, a cair na armadilha. Se assim é, devo me perguntar se esta é a primeira queda, se a vida que vivi até agora não foi engendrada em meio a outra, e assim sucessivamente. Se assim é, devo me perguntar: quantas vezes já caí, quantas ainda cairei? Meu futuro imaginário é mera repetição de futuros imaginados, de futuros passados?

A desaceleração é tal que a queda para mim talvez nunca se conclua. Faz anos que estou caindo. Dentro de séculos interiores terei caído mais alguns metros, em milênios pairarei a milímetros do chão, e após eons a distância será da escala de nanômetros, mas nunca chegarei. Essa é sem dúvida uma das expressões do Inferno. Apenas reproduzo um paradoxo de Zenão: a metade de uma distância será sempre maior que zero, de modo que é impossível ir de um lugar a outro. Se isso é verdade, não há movimento, meu corpo não está caindo. Talvez os eleatas estivessem certos em crer que só existe a Esfera. Quanto a nós, se somos dotados de uma fração ínfima da Inteligência, talvez sejamos seus vértices, pois uma esfera é um poliedro platônico de faces infinitas, tão platônico que nem Platão o reconheceu.

Porém os eleatas erraram em supor que a Esfera permanece intacta, invicta, imutável. Para que houvesse um Início foi necessário que experimentasse sua própria queda, e desde então está interminavelmente caindo, que se pulverizasse em um quintilhão e mais pontos, que são suas partículas indivisíveis e iguais a Ela, pois quem em sã consciência dirá que um ponto não é uma minúscula esfera? E a esses pontos os homens que o intuíram deram o nome de centelha divina, atma, mônada.

Sendo a Esfera todo o Ser, contudo, ao explodir não tinha para onde expandir-se. Não sofreu qualquer alteração em Seu aspecto. Apenas deixou de ser una, fez-se miríade. Talvez a analogia menos imperfeita seja a de um organismo cujas células deixassem de servi-lo e regredissem ao estágio de moneras. Se mereceu tamanho sacrifício, a realidade é o grande amor da Esfera, a razão de ser do Ser. E mais: se o mundo sensível é uma ilusão, essa ilusão é, está na ordem do Ser, não na do Não-Ser. O homem é o único ente apto a presidir a transição entre as duas instâncias. Os frutos de sua imaginação são os rebentos de que o Ser está túrgido, e que um dia virão à luz. A Esfera, quem diria, está grávida, grávida de feras e quimeras. Tudo o que concebemos são sugestões para o próximo universo, e quando a obra desse estiver completa, tal será a matéria-prima do futuro.

Inapelavelmente caindo, descubro tarde demais – que sou uma ponte. E já não especulo, pois assim como cada célula traz em si todo o genoma do indivíduo, cada mônada carrega toda a memória da Esfera, a não ser que essa seja apenas a lembrança do futuro circular a que tenho retornado eternamente, ou enquanto vegeto em uma cama.

 

João Paulo Parisio nasceu em 4 de setembro de 1982, no Recife. É autor do livro de contos Legião Anônima, publicado pela Cepe neste ano, e já teve trabalhos veiculados nos jornais Rascunho e Pernambuco, assim como nos sites O Recife Assombrado e Interpoética. Mantém o blog de poesia Ilha Invisível.

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Sobre o autor

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