Passado – Bruno Liberal

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Primeiro é o choro que passa, depois o vazio que se apodera.

Ele prefere assim, com todos os equipamentos ligados e todas as luzes acesas. Conectado. O picolé que escorre vermelho e suja a camisa do filho. O homem que ele foi gritando. Dizendo para a criança tomar logo a porra do picolé e não se sujar. Olhando o relógio, respirando impaciente. Volta, retrocede. Vê novamente. Não chora mais, embora a dor seja sempre maior e vá gritando mais alto, mais alto.

A menina estava brincando. Ele na rede, balançando devagar, lendo um livro. Ela corre com uma faca na mão. Ele lembra o que sentiu e o susto que tomou. A filha corre em sua direção com a faca apontada para cima. Ele pula e grita. Ela para e não entende. O homem que ele foi bate na criança com força para ela aprender a nunca mais pegar uma faca. E ter responsabilidade, ela precisa.

É uma dor instalada, irresistível.

O homem que é, agora, está sempre assistindo e sofrendo essas coisas. Não há fuga. É o seu alento. Restou isso para viver.

(O mundo parece que ficou preso nessa redoma de acessos. Essa máquina é fantástica. Reconstruir as principais lembranças e projetar na nossa frente. Parece até que podemos pegar as imagens e viver novamente. E que pesadelo, meu Deus!)

“Segura minha mão”, diz para essa imagem do filho.

“Segura!”

Mas a imagem é uma lembrança e se vale do passado para cumprir seus passos. Ela faz justamente o que fez, não se abre para o novo. Ele é espectador, mas também participa. O que faz é isso: olhar repetidamente a cena e ver claramente os olhos do filho, a faca da filha. A tristeza dos dois que também é sua.

*

Eu sinto: agora é o vazio que passa e o choro que se apodera.

O quarto imundo. O cheiro de esgoto. A barba crescendo, grama que se arrasta. A pele que o tempo entrega, os fios brancos, a louça suja na pia, as roupas amontoadas, as baratas morando. Mas também estou sorrindo com meus óculos de realidade virtual. A casa limpa, o jardim florido, meus filhos correndo na década de dois mil e vinte. A pele macia recém barbeada, o cheiro que sinto, o sol e o céu. A comida farta.

(Direciona o avatar e chama os filhos. Não consegue tirar dos olhos suas últimas lembranças. Tenta reprogramar e mudar a cor e esticar o sorriso e alterar as pálpebras. Nada disso muda o olhar triste. Ele sempre irá ver esse olhar. Sempre.)

Queria entender essas últimas lembranças. Por que o menino lembra do picolé e a menina da faca? Assisto repetidamente às cenas. Digo para segurarem minha mão, tento participar, levá-los a outros lugares. Suja a camisa de vermelho, o brilho da faca. Penso que poderia ter feito algo. Os olhos tristes. Do meu filho. Olhos. Da minha filha. Olhos. Os meus secos, rijos, crispados em mim. Sempre fazendo algo meu, da minha vida. Trabalhando todo dia, rindo com os amigos, bebendo, fazendo a barba. Traindo a esposa. Traindo e traindo meus filhos. Mentindo, mentindo. E não consigo despertar. Todos estão mortos. Eu aqui. Vivo. Preso no passado.

Trabalhando e trabalhando nos olhos. Para ficarem felizes.

(Volta, retrocede. Vê novamente. A máquina, essa prisão: o passado. Qual futuro? Não chora. Sempre. Firme. Alta. A dor.)

Bruno Liberal é economista e escritor, estreou na literatura com o livro de contos Sobre o tempo (Editora Multifoco). Seu segundo livro Olho morto amarelo foi o grande vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura em 2013. Em 2014, lançou pela Mariposa Cartonera o livro Juro por Deus que é um final feliz. Vive em Petrolina-PE. E-mail: bl.liberal@gmail.com

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Sobre o autor

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