Quarto – Deco Vicente

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Ele veio. Atrasado, mas veio como um príncipe. Meu príncipe. Todo de branco, a pele corada, sem nenhuma ruga. O cabelo bem aparado, a barba feita. Mas por quê ele tá usando esse perfume diferente? Bobagem minha. Isso não é nada perto desses olhos castanhos.

Por que ele deu meia volta? Deve ser porque estou na cama ainda. Dez da manhã e ainda de camisola. Preciso levantar daqui, me maquiar, ele não pode me ver assim, descabelada, sem nem um batonzinho sequer. Você sabe como é cabeça de homem. Um dia te ama e no outro te troca. Preciso dos meus cremes, não posso continuar envelhecendo tanto. Posso até perguntar que creme ele usa. O danado não envelhece. Tem a mesma carinha de 50 anos atrás. É amor, boba. Só pode ser amor.

Onde estão minhas coisas? Que estranho. Não me lembro dessa última mudança. Deve ter sido ideia dele. Ah, sempre esperto. Como não confiar? Pediu pra tirar os quadros para não acumular pó por causa da minha alergia. O branco das paredes, do piso e do teto pra economizar luz. Mas cadê minha maquiagem? Tantos potes diferentes, nomes esquisitos.

Acho que vamos ter que sair assim. Mas se ele me ama mesmo, não tem problema. Que se dane o que as outras pessoas vão pensar na rua. Somos nós dois. Só nós dois. Nessas horas o mundo não interessa.

Finalmente. A porta abriu de novo. Mas quem é essa moça? Como ele traz uma mulher aqui em casa e não me diz nada? Ela está aqui no meu quarto e eu assim, sem estar vestida.

– Dona Lourdes, bom dia. O Dr. Adauto teve uma emergência mas ele vem já, tá?

Tá vendo? Ele vem. Atrasado, mas vem. Meu príncipe.

Deco Vicente, recifense, é de 1979 e visita a cidade regularmente. Já escreveu em alguns blogs, mas prefere omitir os detalhes. Hoje também tenta contar histórias através de câmeras fotográficas.

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