Sombras de Tel’Ahmar – Mário Lins

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O ombro esquerdo de Sulaphin pulsava em ritmo com suas passadas, uma agonia que irradiava fogo por todo o seu braço enquanto ele corria ao lado de Ralek, duas sombras em disparada sobre os telhados de uma silenciosa Tel’Ahmar. “Um trabalho pra dois, Suli. É só entrar e sair, ninguém vai nos ver”, era o que Ralek havia dito, uma caneca de turgaal pela metade à sua frente na mesa da taberna escura e esfumaçada onde eles haviam se encontrado uma lua antes. O ladrão parecia ansioso, e Sulaphin sabia que isso sempre significava um belo pagamento à espera. Mas as coisas nunca acontecem do jeito que você espera.

Os dois saltaram em sincronia do templo de Akara para o teto de uma estalagem, flechas zunindo sobre suas cabeças. Sulaphin caiu no telhado e fez um rolamento para amortecer o impacto, seu ferimento imprimindo uma mancha molhada contra as telhas. Levantando-se num movimento contínuo, ele prosseguiu com sua fuga por sobre os topos dos edifícios. “E o que é que nós vamos pegar?”, Sulaphin havia perguntado, seus olhos ardendo, se da fumaça ou do turgaal que acabara de beber, ele não sabia dizer. Ralek se inclinara para frente, um sorriso no rosto, “Nós, meu velho amigo, vamos roubar um Trul khor.”

Parecia que ele já estava correndo havia uma eternidade. Os guardas tinham ficado para trás, despistados no emaranhado de becos do Fosso. O ombro de Sulaphin pulsava, a silhueta de Ralek mantendo um ritmo constante à sua frente enquanto a dupla traçava um tortuoso caminho em direção ao esconderijo. Para fugir da dor, sua mente voltava para aquela noite que parecia cada vez mais distante, a fumaça rançosa da taberna transformando-se em um bálsamo reconfortante na sua memória. Ralek havia prometido que aquele seria o último trabalho deles. “Vamos nos aposentar, Suli. Passar os dias estirados nas areias prateadas de Sah Huntal, quatro ou cinco morathnas lindas nos servindo e nenhuma preocupação no mundo.”

Uma telha cedeu sob o pé direito de Sulaphin e ele se viu mergulhando de uma altura de doze braçadas direto sobre uma cerca de ferro com enormes pontas afiadas. Filho de Malak! Rápido como uma serpente, Ralek deu um bote na gola do apphak de Sulaphin e transformou a queda fatal num movimento pendular, lançando-o além da cerca. O ladrão caiu numa ruela de terra batida, o impacto expulsando todo o ar de seus pulmões e causando uma dor tão excruciante que, por um instante, Sulaphin desejou que Ralek tivesse deixado ele acertar a cerca e pro abismo com tudo aquilo.

Sentindo gosto de sangue em sua boca e a dor de algumas costelas quebradas, o ladrão precisou da ajuda do companheiro para se levantar. “Falta pouco, Suli”, sussurrou Ralek, passando o braço direito de Sulaphin sobre seus ombros e ajudando-o num andar cambaleante. “O Trul khor”, Sulaphin conseguiu dizer, o som raspando em sua garganta. “Não se preocupe, está comigo”, Ralek respondeu, erguendo o embrulho de couro que guardava, Sulaphin sabia, uma enorme chave de metal. “Se a chave é desse tamanho, imagine o tamanho da porta que ela deve abrir”, ele havia comentado, olhando o desenho do Trul khor sobre a mesa cheia de restos de comida, a taberna já deserta àquela hora. Ralek simplesmente dissera, “Se essa fosse a chave dos Jardins de Akara, pouco importaria. Pense em tudo que você vai poder comprar com uma única noite de trabalho, Suli.” Uma noite que está custando bem mais do que eu imaginava.

Após alguns minutos cambaleando por entre becos e ruelas escuras, Sulaphin começou a sentir no ar um cheiro de sal e podridão. Estamos perto do mar. Mas o esconderijo não ficava junto do cais, Ralek tinha se afastado muito da rota planejada. Como se estivesse ouvindo as dúvidas de Sulaphin, Ralek sussurrou, “O Beco da Navalha estava sendo vigiado. Alguém nos entregou, Suli. Vamos tentar passagem com algum pescador pra fora da cidade e deixar as coisas se acalmarem um pouco.”

De algum lugar próximo, eles escutaram um som de folhas secas sendo reviradas. O ruído foi ficando mais alto, até transformar-se num chocalhar que fez todos os pelos do corpo de Sulaphin se arrepiarem. Não, por favor. O kthrall ergueu-se das sombras, sua enorme carapaça negra parecendo sugar a fraca luz que chegava da rua pela entrada do beco. Sulaphin ouviu alguém soltar gemido de pavor, e alguma parte distante do seu cérebro reconheceu que o gemido havia sido seu. Um devorador, por Akasha. O khtrall ficou de pé, um borrão escuro de quase dois metros de altura, seus muitos braços desdobrando-se à sua frente numa sequência de estalos que lembravam Sulaphin de ossos sendo quebrados. As pernas do ladrão fraquejaram, e não fosse por Ralek segurando-o, ele teria caído. Seu companheiro estava paralisado, o rosto pálido e olhos esbugalhados. “Ralek, faça alguma coisa. Não dá pra fugir de um devorador, Ralek. Ele é rápido demais, um devorador nunca perde um rastro, Ralek. Eles só param quando abraçam a caça e sugam ela inteira viva. Ralek, porque você não falou que eles tinham um maldito kthrall guardando o Trul khor, Ralek?”

“Se eu tivesse avisado, você não teria vindo.” Sulaphin sentiu as mãos segurando seu ombro agarrarem seu apphak e empurrarem com força. O ladrão teve tempo apenas de dar um grito, concentrando todo o pavor que sentia em uma única nota aguda que ecoou brevemente pela noite. O khtrall fechou todos os seus membros sobre ele, perfurando a pele de Sulaphin em dezenas de lugares num abraço que estava longe de acabar. Ao longe, passadas rápidas levavam Ralek para uma pequena embarcação com destino a Sah Huntal. Era um trabalho para dois, planejado para garantir o futuro de apenas um.

 

Mário Lins nasceu no Recife-PE em 1979, e radicado em São Paulo. É publicitário, já atuou como transmedia storyteller em algumas das melhores agências do país. Tem contos publicados em suplementos culturais. Atualmente escreve seu primeiro romance, do qual o conto Sombras em Tel’Ahmar é uma pequena prévia. É fundador do coletivo literário Vacatussa.

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Sobre o autor

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