Rossini – Felipe Pauluk

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estou arrasado. sentado, encarando a tenebrosa quina de vidro da minha mesa de centro. recebi uma ligação hoje, um amigo meu de infância, amigo de escola, morreu. quem me ligou foi o pai dele. “estou ligando para a lista de amigos do celular do rossini para avisar que ele morreu e vamos velar na acesf, às 4 da tarde. você é bem amigo dele ou não?”. pensei em dar uma de pedro e negar três vezes antes do galo cantar, mas respondi que sim. senti a voz embargada do velho, estava com um nó de marinheiro na garganta. aquilo passou meu peito por um moedor de carne. troquei poucas palavras com rossini na escola. o reencontrei dias atrás no centro da cidade. na verdade, foi ele quem me encontrou, me reconheceu. rossini tinha bafo, estava com uma camiseta desgastada dos beatles, me disse que tinha parado na oitava, trabalhou de gari e chegou a vender dvd’s piratas caminhando sob sol escaldante, lá na região metropolitana. no dia em que nos vimos ele pediu o número do meu celular, depois pediu cinco contos emprestado, disse que me devolvia o quanto antes. nunca mais vi o rossini por aí, nem peguei meu maldito cinco reais novamente. tempos atrás recebi no meu celular duas mensagens perguntando se eu gostaria de tomar um chopp, não respondi, não sabia de quem era aquele número. hoje, através da ligação do pai, descobri que era do rossini. ao final da ligação perguntei do que ele morreu. o velho disse que foi achado morto em um milharal. que ele estava morando em uma casa invadida no conjunto habitacional bela vista, mas que sempre foi um menino de deus. desligou. chorei por dez minutos ininterruptos sentado no sofá da sala. veio na minha mente a lembrança de rossini deitado no meio da quadra da escola em uma das únicas vezes que conversamos. perguntei o que ele estava fazendo lá e disse que precisava sair para que pudéssemos jogar. ele disse: “quando eu fico deitado, olhando nuvens passar, parece que estou caindo. parece que sempre vou cair. não sei para onde, mas vou cair sempre”

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Sobre o autor

Nasceu em Curitiba-PR (1984). É autor dos livros Meu tempo de carne e osso (Multifoco), Hit the road, Jack (Faces, 2012), Town (Penalux, 2015) e os livretos Comida de butequim e Tórax de São Sebastião (Madrepérola, 2016).

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