Ruína em construção – Jair Stangler

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O menino corre empolgado pela casa que, mesmo em construção, já parece uma ruína. Chão de concreto nu, tijolos à vista, buracos no teto e nas paredes à espera de lâmpadas, interruptores, torneiras e fiação: nada disso é obstáculo para a imaginação do garoto, que vasculha a ruína em construção com a mesma curiosidade de um espeleólogo em uma caverna, farejando qualquer rastro de aventura ou, quem sabe até, uma passagem secreta para a casa da vó, que fica logo ali na outra quadra. O teto amparado pelas paredes erguidas pelo caprichoso trabalho do vô dão ao garoto a certeza de que aquilo já é mesmo uma casa. O pai é o guia da casa: aqui será o quarto de vocês, teu e da tua irmã, e tem até um pequeno jardim de inverno (mas pai, não dá pra ir lá no verão?); este aqui será o quarto do pai e da mãe; aqui nós vamos fazer uma biblioteca… O último cômodo é a mãe que anuncia, empolgada: e esse aqui vai ser o quarto da bagunça! Os olhos das crianças vibram com a ideia. A irmã, um ano mais nova, também anda pela casa, com seus grandes olhos azuis-fascinados, mas ainda é muito pequena e não consegue acompanhar o garoto em toda sua vertigem e ânsia de descoberta e, volta e meia, fica esquecida em algum cômodo. Além dos quartos, da sala, da cozinha, do banheiro, a casa tem também um pátio, um quintal e até um puxadinho, na verdade um puxadão, que já está pronto, nos fundos. O garoto pensa que nem precisam voltar para a pequena e velha moradia da família: no que depender dele, podem se mudar imediatamente para a casa nova e ficar morando no puxadão, como sugeriu o vô.

Quando reencontra os adultos, o menino revela, espantado:

– Essa casa é muito grande! Eu vou me perder aqui dentro!

Os adultos acham graça, até sua irmãzinha ri, e então o menino é invadido pela alegria mais esplêndida que jamais sentiu na vida. Ele não tem como saber ainda, claro, mas, em poucos meses, aquelas paredes nuas serão revestidas de reboco, tinta branca e aventuras diferentes das que ele agora imagina: o quartinho da bagunça vai ser mesmo um lugar de bagunça e festa, mas também vai ser o local em que seu pai vai se despedir dele e de sua irmã antes de sair de casa e se separar de sua mãe; o quarto de dormir vai conhecer as ótimas histórias que sua mãe contará antes de dormir para povoar a imaginação do menino e de sua irmã, mas também vai receber a visita dos terríveis monstros feitos de abandono e solidão quando a escuridão e o silêncio tomarem conta; o quarto dos pais logo será o quarto de sua mãe e de um outro homem, que não será seu pai e que não vai tratá-lo como filho; a sala de estar, com o animado toca-discos que repetirá muitas e muitas vezes o mesmo vinil do Balão Mágico, será também o purgatório dominical onde os irmãos vão esperar uma eternidade até o pai aparecer para levá-los à sorveteria Paraíso; a própria casa, enfim, terminará abandonada por seus primeiros moradores, e ganhará um novo dono, que vai pintar as paredes de azul e instalar grades altas o suficiente para manter presa lá dentro, para sempre, toda a promessa de felicidade que o menino agora vive.

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Sobre o autor

Nasceu em Carazinho-RS, em 1980. É jornalista formado pela UFRGS e está cursando Escrita Criativa na PUC-RS. Tem contos publicados nas antologias "101 que contam" e "Antologia Um Escrita Criativa PUC-RS".

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