Só abra em 2027 – Tatiana Maciel

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dobrei aqui essa página
bem dobrada com cuidado
pra ela durar o tempo que falta
pra eu sair desse pântano
em que empaquei agora

eu sei que foi chute
esse número: dez anos
parece muito
parece tanto
parece que o pântano aumentou
só de eu pensar nesse tempo

mas sendo realista
não parece daqui do meu ângulo
que vai ser muito rápido
me recompor por completo

talvez hoje
depois de tudo
se tudo der certo
você vai ler a carta de uma mulher
e não de uma
anêmona

nesse hoje teu
aí da frente, claro,
não nesse meu hoje aqui
que já vai ser arqueológico
a essa altura

no meu hoje
coisa nenhuma deu certo
foi um dia só de dúvida
ressaca, azar
e pânico

desde que acordei sozinha
com o som da chuva
bem forte no ar-condicionado
depois de ontem ter embrulhado
o resto das tuas coisas
encarando meu medo
e um monte de ácaro

o mais difícil foi levantar
e ir ao banheiro
pareceu ir à Bulgária
mas segui
tentando fingir que fazia sentido seguir

no escritório andei pra lá e pra cá
e ouvi reclamação
de um monte de gente
que parecia não ter sido avisada
de que o mundo tinha acabado

ligaram da imobiliária
um cara com nome estranho
começava com ípsilon, acho
pra dizer que não pagamos setembro
e segurei o impulso de te ligar
pra falar de uma casa
que não é mais a tua
mesmo que só desde ontem

ainda por cima,
voltando pra casa, distraída,
fechei a mão na porta do carro
tive que botar gelo
e passar no médico

agora pedi um gnocchi no Spolleto
e aqui sofrendo com a azia
e com essa luz esverdeada
que não me favorece muito
consegui pensar que
mesmo você sendo míope
foi bom você não ter vindo

foi bom você ir embora
foi melhor assim
não foi?

pelo menos você me vê de outro jeito
com calma, coragem e contraluz
mesmo que demore dez anos

é que aqui nesse hoje
só consigo pensar em álibi
e em senha de telefone
e só quero saber o porquê de cada coisa
como se existisse porquê
pra cada coisa

me sinto péssima
me sinto tonta
me sinto a pior versão de mim mesma

você, eu nem reconheço
falando umas palavras novas
e escrevendo em francês

sem saber a concordância
sem saber gramática
sem saber absolutamente nada
de francês
tão distante,
me olhando de cima,
como se fosse eu
que não soubesse nem francês nem nada
nem gíria

que lástima
tanto amor
esgarçado desse jeito

ainda assim
mesmo vivendo a dureza de cada dia
o silêncio
as palavras se esvaindo
o francês mal falado
que ouvi atrás da porta
patética

sua decisão súbita
de ir embora
ainda me espanta
você nunca foi disso
de abandonar o barco

você sempre foi o melhor de nós dois
o mais generoso
o mais sábio

que ficasse nem que só por inércia

agora eu um pouco mais burra
um pouco mais lenta
tentando reformular uma teoria inteira,
uma ética
que mantenha tudo como era
você melhor do que eu
e aqui
na minha cama

e se te odeio
ou sinto sua falta
olho no espelho
e observo
que me transformo de um estereótipo
em outro

foi melhor você ter ido
pra não ver esse espetáculo

essa minha magreza
um quadril que não segura vestido
o rosto pálido
e a cabeça mais chacoalhada que champanhe

não vai ser hoje
que eu vou ser outra
mas vai ser com toda certeza
em menos de dez anos

sei também
que essa tua estupidez é transitória

por isso fui à caça
de um guardanapo rugoso
que dê pra escrever com esferográfica
porque só tinha aqueles de papel manteiga
na minha mesa

e imagino agora um futuro
de distopia americana
com carro voador e tudo
desses protótipos que a gente vê
em vídeo na internet

e se tudo der certo,
e você abrir essa epístola
bem aí no meio de 2027

talvez aí, nesse teu hoje,
entre máquinas prateadas
e neons no horizonte
ao ler minhas palavras
e lembrar de quem eu fui
e de quem você também foi
lá no começo
você possa imaginar
a gente finalmente
pronto
pra um diálogo.

Tatiana Maciel nasceu no Recife em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É roteirista, tradutora e escritora. Seu romance O homem dos sonhos foi publicado pela editora Agir em 2006. Tem uma paixão pouco descontrolada por histórias, música e sorvete de café.

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