Sobre mistérios e pragmatismos – Joana Rozowykwiat

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Estava escrito. Lá nas estrelinhas do céu. Perfeccionista, trabalhadora, metódica, inteligente, crítica. Olhava para cima e lembrava de quem deveria ser. E era. Acreditava na força da natureza, no poder da lua e do dinheiro, claro, que podia ser meio esotérica, mas besta é que não. Então danou-se a trabalhar para garantir que o amanhã chegasse farto.

Analisava processos, relatórios, enviava análises, recebia elogios, dava broncas, ganhava aumento de salário, franzia a testa, cobrava os prazos, era cobrada, varava as madrugadas, corria para a academia na hora do almoço, bebia um café e outro e outro. Comia um hambúrguer e outro e outro. Arranjava um tempinho para o salão.

Começaram as reuniões na filial, depois as decisões sobre a fusão. Contratou jovens promissores, demitiu amigos experientes. Chegava atrasada no bar, desistia da festa, esquecia o aniversário. Perdia os encontros, evitava os encontros, odiava os encontros. Aff, que encontro? Telefonava para desabafar com os amigos. Depois ficou mais fácil mandar e-mail. Aí viu que WhatsApp era mais prático. Ontem desejou feliz dia dos pais com aquele smile maroto. Hoje nem tempo teve de entrar no Facebook. Não leu as notícias. Não conseguiu checar o e-mail. De reunião em reunião, distraiu-se.

Não percebeu que era o grande dia. Há anos as runas confirmaram o que as cartas e os astros diziam desde 1999. Aquele seria o seu momento. A realização, o amor e a riqueza viriam naquela tarde de setembro. Ela sabia e preparou-se para recebê-los. Mas passou o dia trancada no escritório. Não viu que a prefeitura lançou um edital para novos escritores, nem percebeu Gabriel atravessando a rua e olhando saudoso para a cafeteria onde eles costumavam conversar nos intervalos do trabalho. Também não checou o saldo da sua conta bancária.

E o dia passou assim, como também passaram-se os meses e os anos e tudo o mais, menos o seu futuro prometido, que ela insistia em esperar. E praguejava porque o amanhã das maravilhas nunca chegava e, com o tempo, passou a maldizer também as cartomantes, as constelações e os espíritos, que erraram feio nos seus presságios. Desacreditou dos mistérios e decidiu que seria cética. E era. Ou assim pensava. Até o dia em que o telefone tocou e Gabriel disse alô. Ela abriu um sorriso e disse que ele estava atrasado. Nem os deuses poderiam prever que ele fosse tão tímido.

 

Joana Rozowykwiat nasceu no Recife, em 1981, e hoje mora em São Paulo. É jornalista, especialista em Jornalismo Político e autora do livro Subversivos – 50 anos após o golpe, recém-lançado pela CEPE. Tem contos publicados na coletânea Recife conta o Natal I (2007) e no Suplemento Cultural Pernambuco. Integra o Vacatussa.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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