Sobre o Prêmio Pernambuco de Literatura

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Quando foi anunciado, o Prêmio Pernambuco de Literatura surgiu como uma proposta para valorizar a produção local e dar oportunidade a novos autores, abrindo espaço para escritores até então desconhecidos. Terminado o primeiro ciclo, com a publicação dos cinco livros vencedores em março deste ano, chega a hora de fazer uma análise sobre o prêmio. Vamos lá.

Primeiro em relação ao mérito, digamos, artístico do prêmio. Mesmo só podendo opinar sobre Olho morto amarelo de Bruno Liberal e O metal de que somos feitos de Walther Moreira Santos, que foram os livros que li até agora, o trabalho da comissão inspira confiança. Colocar esses dois bons livros na prateleira, pra mim, já é um retorno suficiente para justificar a existência do prêmio.

Por outro lado, nada justifica o desleixo na composição dos livros. Se enquanto obras de arte (de expressão pessoal, de construção narrativa) elas se sustentam; como livro (digo, produto livro) eles deixam a desejar. Na contramão do cuidado que a Cepe tem demonstrado nos últimos anos (inclusive em relação aos vencedores do seu Concurso de Literatura Infantil e Juvenil), os livros do Prêmio Pernambuco surgem como patinhos feios dentro do catálogo da editora.

No aspecto visual e de conteúdo. As capas são feias, carregam um ranço de edições do autor e se posicionam em algum lugar entre o brega e o religioso, num ar solene que se pretende elegante, mas que soa decadente. A capa do Metal de que somos feitos, por exemplo, está mais para um livro religioso ou de autoajuda do que para uma obra de ficção, que explora a brutalidade imposta pela vida nos seres humanos.

OK, pode ser uma questão de gosto. Mas ainda nesse campo de embalagem, não consigo entender porque nenhuma opinião crítica, nenhuma análise ou comentário acompanha os livros. Nem mesmo de algum membro da comissão julgadora, que referenciasse o livro, apresentasse questões levantadas pela obra, falasse do processo seletivo, dos critérios de avaliação e justificasse a escolha por tal obra. Nada. A contracapa se resume a um trecho do livro e a orelha à biografia do autor, sem foto, em apenas uma das abas.

A impressão que dá é que pegaram os textos vencedores e jogaram lá nos livros, como ilhas isoladas, sem qualquer ponte que pudesse contextualizá-las ou oferecer uma trilha de acesso para os leitores. E mesmo assim, os que resistem a esses obstáculos e avançam na leitura, deparam-se com a ausência de uma boa revisão. Erros pipocam durante a leitura. Erros bestas, de digitação, de concordância, de coerência, mas erros. O fato de serem textos premiados não inviabiliza possíveis alterações posteriores ao resultado. A seleção foi num momento e a publicação acontece em outro, esse intervalo de tempo deveria ser usado para o aprimoramento das obras.

Mas ao apoiar a produção dos livros apenas no rótulo do Prêmio Pernambuco de Literatura, o objetivo do concurso em valorizar a literatura local acaba revelando uma distorção bem comum à lógica da literatura de evento. O que deveria ser uma ação para estimular a leitura em si, contribuindo para a disseminação dessas obras, corre o risco – mais uma vez – de ficar empacada no auê em torno dos autores, conhecidos não pelo mérito de suas obras, mas pela presença de suas fotos e seus nomes nas seguidas matérias sobre o prêmio.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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