Sugestão de leitura: Memórias do Subsolo

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Minha última leitura de férias foi esse incômodo peso na boca do estômago chamado Memórias do Subsolo, de Dostoiévski. Faz pelo menos três anos que comprei o livro e, por um motivo ou outro, sempre adiava a sua leitura. A obra é dividida em duas partes, ambas narradas em primeira pessoa pelo Homem do Subsolo, o protagonista do livro, um personagem sem nome e que coleciona uma série de fracassos e frustrações. A primeira parte quase pende para um ensaio, na qual o personagem propõe, sempre com zombaria, uma série de debates intelectuais. A segunda parte é mais propriamente narrativa, com uma grande cena final envolvendo o narrador e a prostituta Liza. Até diria que Memórias do Subsolo, por causa dessa estrutura, não precisa ser lido de maneira linear: o leitor pode preferir ler só a primeira parte ou, por exemplo, ler a segunda antes da primeira. Numa releitura, penso em intercalar: começar a partir da segunda parte, dar algumas pausas e ler pedaços da primeira, até que se complete o círculo.

A leitura é terrível e saudável, pelo tanto que podemos nos reconhecer na voz do narrador, em que sobram cotas de misérias humanas endereçadas a cada um de nós. E desconfio que o mundo virtual, com suas diatribes de facebook, blogueiros com o dedo médio em riste e estadistas de fim de semana, é hoje o “subsolo” por excelência, não acham? Mas há uma diferença entre esse narrador e os nossos homens do subsolo: a radical autoconsciência, por parte do personagem criado por Dostoiévski, da própria enfermidade de seu mundo íntimo.

Queria, então, compartilhar com vocês dois trechos:

“Em primeiro lugar, eu não podia mais apaixonar-me, porque, repito, amar significava para mim tiranizar e dominar moralmente. Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pude conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado”

“Atualmente percebo, com toda a nitidez, que eu mesmo, em virtude da minha ilimitada vaidade e, por conseguinte, da exigência em relação a mim mesmo, olhava-me com muita frequência, com enfurecida insatisfação que chegava à repugnância e, por isso, atribuía mentalmente a cada um o meu próprio olhar”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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