Tempo de Vidro e A praça azul – Samarone Lima

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

samarone-apracaazulAutor: Samarone Lima nasceu na cidade do Crato, interior do Ceará, em 1969. É jornalista, cronista e poeta. Foi finalista do prêmio Jabuti por duas vezes (na categorias reportagem e poesia) e foi 2º colocado na categoria poesia do Prêmio Brasília de Literatura.

Livro: Tempo de vidro e A praça azul são os primeiros livros de poesia de Samarone Lima. Foram lançados pela editora Paés em um volume único e reúne poemas escritos em diferentes períodos. Com eles, Samarone foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti na categoria poesia.

Tema e Enredo: Tempo de Vidro é um poema longo, dividido em capítulos, de teor biográfico; A praça azul é uma coletânea de poesias que se referem ao passado, à família, à história, pessoal e coletiva.

Forma: Assim como suas crônicas, Samarone se revela em suas poesias, que são como fragmentos biográficos. O autor usa poucas palavras, um tipo de lirismo silencioso que tem na memória etapa essencial do procedimento de criação.

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[learn_more caption=”CRÍTICA” state=”open”]

Lembranças biográficas, versos ficcionais

A trajetória de Samarone Lima enquanto escritor parecia mais ou menos estabelecida; era reconhecido como um cronista investigativo, um autor que revelava em seus textos a herança do jornalismo, até que em outubro de 2012 Samarone lançou Tempo de vidro e A praça azul, seus dois primeiros livros de poesia, reunidos num único volume, pela editora Paés.

Embora estes sejam os primeiros poemas publicados em livro, Samarone vem escrevendo versos desde os 12 anos, anotando palavras em cadernos, guardando páginas enquanto esperava o momento impreciso de maturidade literária; uma atitude que em tempos de excesso e rapidez parece sugerir uma medida essencial de humildade, perceptível também nos textos.

Os primeiros lançamentos estão divididos em dois livros, mas são obras que se complementam; narrativas que embora tenham conceitos distintos operam no mesmo registro de afetos, memória familiar e relevância do tempo como fator decisivo. Tempo de vidro é um poema longo, dividido em pequenos capítulos; A praça azul é uma reunião de poesias que se referem ao passado, à família, à história, pessoal e coletiva.

Em suas poesias, Samarone trabalha com uma quantidade reduzida de palavras, insinuando emoções particulares, sugerindo empatia não apenas pelo que expõe visível na página para apreciação imediata, mas especialmente pelo que oculta nos versos; uma expressividade perceptível pelo rastro de afeto e história que deixa no papel. Poemas que crescem pelo que se mantém secreto e é revelado através da sugestão, da alegoria, dos mitos.

A transição entre crônicas e poesia surpreende num primeiro momento; de uma prosa marcada por fatos, personagens e descrições de ambientes, diálogos e cenas para um tipo de lirismo silencioso, que apenas insinua sentimentos que antes eram delicadamente expostos em longos parágrafos, reportagens, depoimentos e opiniões.

Nas crônicas, textos que com certa frequência eram escritos em primeira pessoa, Samarone revela sua história pessoal, paixões graúdas, fanatismo esportivo, pensamentos ideológicos, convicções políticas; nas poesias o autor adapta essa perspectiva polifônica para versos. Mesmo nas diferenças, é possível rastrear uma espécie versátil de autoria, de unidade conciliadora: a literatura como a batalha de um homem só.

Enquanto cronista, Samarone observa a realidade em volta e reconstrói experiências; essa medida de narrador de casos é adaptada em sua linguagem poética: seus textos tornam-se concisos, buscam o recolhimento, uma medida íntima de entendimento, repassando emoções como quem fala pouco e baixo, buscando não necessariamente a compreensão, o diálogo, mas algo perdido: revisões simbólicas de seu cotidiano, sua história.

As poesias de Samarone são como fragmentos biográficos; trechos de recordações de tempos vagamente familiares são erguidos a cada novo verso, numa mistura mais ou menos equivalente entre memória e ficção, reminiscência e imaginação – o instante em que biografia se torna literatura.

Nos dois livros de poesia o autor se refere à memória, ao processo ritualístico de lembrar como etapa essencial do procedimento de criação. Aos poucos, as palavras parecem formar imagens da infância, situações que cativam pela universalidade das ocorrências, a manifestação do efêmero, a mistura de tempos: a herança ancestral e o cotidiano presente.

É um autor que dá o devido valor à palavra, ao potencial revelador da narração poética; considerando que esses são apenas os primeiros livros de poesia de Samarone, e pensando também na recente renovação no gênero e novos livros de grandes autores, como Fernando Monteiro (Mattinata) e Eucanaã Ferraz (Sentimental), os próximos anos parecem sugerir um futuro instigante para a poesia brasileira.

Lido em Ago. de 2009

Escrito em 19.08.2009

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/08/hugo-viana.jpg[/author_image] [author_info]Hugo Viana é jornalista, é o responsável pela cobertura de literatura no jornal Folha de Pernambuco.

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[/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Tempo de Vidro e A praça azul

Samarone Lima

Paés

1a. edição 2012

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“Meu pai me matou muitas vezes

Sua mão era pesada

Como as mãos de quem carrega pedras

Para dentro do coração de osso

Mas só morri

Quando ele estancou a própria morte

Em mim

Soube de outras mortes

Arrancadas de dentro

Como coisas fecundadas e não nascidas

Que seguem gerando no tempo

Meu pai morreu muitas vezes

Em noites de sexta-feira

Em meio aos goles de saudade

Quando seu pai, mais ausente que o meu

Criava os golpes de

Metades nunca encontradas

Lágrimas envelhecidas

Amoleciam o chão

Como um corpo que desliza para o passado

E encontra outra vida

Na contramão”.

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Diogo Guedes, Jornal do Commercio, em 24 de junho de 2012

“É um poema forte, e o próprio autor admite isso. Samarone trabalha, aqui e em A praça azul, com o impacto da palavra e das imagens, deslocadas dos seus lugares-comum.”

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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