Thomas Wayne – Mário Rodrigues

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“Entre 80% e 90% dos pais optam por interromper a gravidez se a trissomia 21 é descoberta.” – Deutsche Welle


Carrego o bebê. Pareço assustado. Mais do que assustado: culpado antecipadamente. Olho pros lados e vejo o beco sujo. Útero podre que receberá o filho indesejado.

“Espartanos costumavam abandonar os bebês deficientes para que definhassem até a morte. Aleijões, epiléticos e doentes mentais não eram bem-vindos nas sociedades antigas. O bebê ao nascer era levado aos anciãos. Caso fosse uma criança sadia, seria devolvida ao pai. Se fosse doentia, seria lançada num profundo poço de água ou do alto de um promontório.”

Não sou um antigo. Vivo no século XXI. Mas sou antigo. Rústico e agreste. Uma unha encravada, não no pé, no coração. Desonrado por ser quase estéril. Por não ser capaz de embuchar uma fêmea. Há dias, Martha trouxe notícia: engravidara. Não sei como, depois de tantos anos, já envelhecida. Quarentona.

“Ultrapassa mais de um para cada setenta nascimentos. A chance de um bebê nascer com Down nessas circunstâncias são, lamento dizer, o que chamamos de altíssimas.”

Carrego o bebê enrolado num lençol. Entro no beco. Por que deixei Martha me convencer? Tratamento! Nunca! Pai teve dez filhos!, foi meu protesto. RA: que peste é isso? Reprodução assistida. Martha me persuadira: Meu sonho, nosso sonho. A casa é sempre tão vazia. Maldita hora em que concordei. Agora, no beco, o que tenho entre meus braços?

“Um novelo alheio e deteriorado de carne rosa – e pior – criança indesejada – e pior – o bebê postiço é deficiente – e pior – uma deficiência incurável – e pior – uma deficiência mental – e pior! – deficiência sem camuflagem possível. Síndrome de Down.”

Sento-me no meio-fio do beco. O chão é duro, sujo e fétido. Chão como eu. Olho para os olhos do bebê, enviesados. Não olha mais. Fecho meus próprios olhos.

“Há um cromossomo extra. A chamada Trissomia 21. O cromossomo 21 é representado três vezes, em vez de duas, como os outros cromossomos. A síndrome de Down se distingue por características físicas tais como olhos inclinados para cima, um nariz curto, de septo achatado, e cabeça pequena; apresentando de moderado a grave retardo mental. Mas neste caso é diferente, a deficiência constatada cedo poderá ser atenuada. A criança terá uma vida normal, praticamente. E essa escoriação no rostinho do bebê? Foi queda?”

Levanto-me do meio-fio. Se fosse o bebê da médica que tivesse aquilo, queria ver se ela manteria aquele risinho. Olho por entre os prédios a fatia de céu, pesado e nublado. De chumbo. Saio do beco. Talvez o bebê tivesse vida normal. Mas eu, o pai, teria? Pai de um… uma… uma criança mongo… doente. Apresentar como minha uma criança de olhos virados e cabeça pequena e língua pendente: nunca. Jamais.

“A TN. A translucência nucal já revelava tudo. A alteração cromossômica. Mas escondi o exame do desgraçado. Ele ia querer que eu tirasse. Enfiaria cytotec na minha boca e depois abriria minhas pernas e enfiaria mais uns dois. Essa escoriação no meu rosto? Parece queda, mas não foi não. Foi uma mãozada dele. Quando soube.”

Estou de volta à rua que dá acesso ao beco. Começo a correr. É fácil correr agora já que nos meus braços não há mais nada. Não é mais a antiga Esparta que está no meu cérebro. É o Batman que vi no cinema. Batman: criança, sozinho em beco sórdido. Mas eu sei que o bebê não sobreviverá. Daquele jeito e com aquela síndrome, ele nunca será protagonista, herói.

“Não sei se vocês sabem. Mas essas crianças desenvolvem uma sensibilidade incrível. Além do normal. Conseguem sentir uma profunda empatia e percebem coisas que nós, ao redor, não percebemos. Isso os antecipa emocionalmente. É incrível.”

Rua movimentada a ser atravessada. Entre conclusões e pensamentos: vacilo. Caminhão veloz em minha direção. Estático ante o atropelamento. Fecho os olhos. Faço careta. O caminhão se aproxima de mim. Grito.

“Não sei explicar, mas até por serem mais sensoriais, mais substantivas, mais concretas, são mais táteis, abraçam mais. Elas têm a percepção de uma cena que outros não têm, uma percepção diferenciada para algumas coisas. Posso afirmar com certeza que essas crianças são extremamente agregadoras.”

***

Eu: estraçalhado no meio da rua. Não por fora, por dentro. Fui salvo por um transeunte que me arrasta para fora da pista e da possível morte: só ele percebeu a cena e se antecipou a ela.

Estraçalhado por dentro, porque olho no rosto do herói e vejo: um rosto gordo e bonito que me observa com candura. Tem olhos inclinados para cima e um nariz curto de septo achatado e a cabeça pequena.

Nem agradeço. Volto correndo para o beco. Ignoro as escoriações da queda. Outras escoriações latejam. A criança abandonada. Maldito, grito comigo. Bisturi maldito, eu. Cytotec maldito, eu. Parteira maldita, eu. Maldito. Visão se anuvia com lágrimas. Corrida cessa aos poucos. Poucos metros do beco.

Entro. Novamente a ideia de útero, antagônica. Grito em desespero. Foi aqui. Foi aqui. Me ajoelho na lama fétida acumulada na sarjeta. Foi aqui. Passo a mão onde abandonei a criança. Então, num sussurro oco, morto: Foi aqui. Me deito na lama em prantos. Foi aqui.

Choro. Apesar disso, vejo entre as latas de lixo um vira-lata pulguento que me devolve o olhar com maior desprezo. Há um plástico branco nas presas do cão. Restos da fralda de um bebê.

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Sobre o autor

Nasceu em Garanhuns-PE, em 1977. Especialista em língua portuguesa pela UPE e professor. Com o livro Receita para se fazer um monstro (Record) venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2016.

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