Tokusatsu – Mário Lins

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(Nota do autor: Tokusatsu é a abreviação da expressão japonesa “tokushu satsuei”, ou “filme de efeitos especiais”. É sinônimo de filmes ou séries live-action de super-heróis produzidos no Japão, com ênfase nos efeitos especiais.)


EXT. – RUA CHUVOSA – NOITE

Sua lycra rosa molhada refletia as luzes dos carros que passavam lentamente, numa procissão solene rumo ao descanso de fim de expediente. As gotas de chuva tamborilavam docemente em seu capacete, escorrendo pelo visor e criando rios coloridos em sua visão.

Precisava passar no banco, o chinês da Liberdade só aceitava dinheiro em espécie. Cruzou a frente do restaurante onde almoçava todos os dias, um desses quilos que ofereciam de tudo, de saladas e massas até churrasco na brasa. A firma tinha desconto lá, mas a mulher do caixa era uma megera, sempre fazia questão de perguntar onde ela trabalhava antes de conceder o abatimento no valor. Como se a idiota tivesse montes de outras clientes que se vestissem de lycra colada e capacete rosa todos os dias.

Catou o cartão na bolsa e passou no leitor da porta do banco. Apenas um caixa eletrônico estava funcionando; duas pessoas esperavam pacientemente na fila enquanto uma terceira, uma senhora prá lá dos seus setenta anos, lutava pra decifrar os comandos enigmáticos que iam surgindo na tela do caixa. As pessoas da fila adotaram o procedimento padrão de quem costumava trabalhar naquela região: observaram ela se aproximar com certa curiosidade e, depois, se esforçaram pra fazer de conta que ela não existia. Depois de tentar controlar a ansiedade por cinco infinitos minutos, finalmente conseguiu sacar o dinheiro. Saiu apressada, jogando notas e cartão de qualquer jeito na bolsa, andando rapidamente até o ponto.

Lá vinha o 99A–10 sentido centro. O ônibus ainda estava duas quadras acima, mas ela já sabia que era o seu – o farol esquerdo parecia levemente mais alaranjado que o direito. Com sorte, chegaria antes das oito. Enquanto as pessoas se amontoavam embaixo da pequena proteção da parada, ela esperava na chuva.

INT. – ÔNIBUS EM MOVIMENTO – NOITE

As janelas fechadas aprisionavam o calor e o odor de uma centena de corpos úmidos, transformando todos os vidros numa grande vitrine embaçada. Ela conseguiu um assento junto à janela, longe do incômodo de bolsas e cotovelos da massa compacta que viajava de pé.

No mar de rostos estranhos, alguns eram reconhecidos de viagens anteriores, companheiros de transporte que nunca se falavam. Hoje em dia, pouca gente ficava encarando. Depois de duas décadas presa naquela forma, a maioria das pessoas já havia se acostumado com uma Patrulheira do Universo sentada no banco ao lado. Nada como uma dose de rotina pra matar a magia das coisas. Foram vinte anos sem ataques de monstros. Vinte anos sem seus colegas de equipe. Vinte anos sem sair daquela maldita roupa nem por um segundo. Vinte anos sem um motivo pra viver.

Os carros se esgueiravam como lesmas reluzentes sobre o asfalto molhado. Ela subtraía as paradas que passavam, numa contagem regressiva dolorosamente lenta. Ao se levantar para descer, um bebê arregalou os olhos e começou a chorar. Ele tinha cabelos escuros como a noite, lisos e brilhantes. Iguaizinhos aos de Hidetsugu.

FLASHBACK – EXT. – DESCAMPADO – DIA

O dia em que tudo começou foi também o dia em que as coisas chegaram ao fim. Os fios negros dos cabelos de Hidetsugu balançavam na brisa fria da manhã. Engraçado como algumas coisas a gente não esquece. Foi ali, naquele exato momento, que ela tomou a decisão de contar tudo pra ele.

Os cinco estavam reunidos em suas formas normais, sincronizando seus medalhões para tentar reativar o robô gigante que havia sido destruído na luta de algumas horas antes. Hideo, Cho e Akami insistiam que o Mega Patrulheiro ainda podia ser consertado. Hidetsugu foi o primeiro a aceitar a verdade: aquela pilha de metais retorcidos jamais funcionaria novamente.

Eles se afastaram dos outros, navegando em silêncio pelo mar de sucata. Os fios negros dos cabelos de Hidetsugu balançavam. Ela olhou em seus olhos, decidiu contar tudo, e percebeu que não precisava dizer nada. Eles deram as mãos, seus lábios se tocaram e foi tão doce.

INT. – RESTAURANTE CHINÊS – NOITE

Ela abriu a porta do restaurante lentamente. Na parede, o relógio marcava oito e quinze. Será que ele já foi embora? Será que ele veio? As mesas estavam todas ocupadas, o som de dezenas de vozes preenchendo o pequeno espaço de forma opressiva, os cheiros de fritura se misturando com o aroma de frutos do mar e molho agridoce.

Algumas pessoas se viraram para encarar a mulher de capacete e lycra rosa toda molhada. Podem olhar. Não tô nem… Então ela o viu, sentado numa mesa de canto. Seus olhos se cruzaram e ele levantou-se para recebê-la. Em seu rosto tão familiar e ao mesmo tempo tão diferente, um misto de alegria e tristeza dançava em uma sequência interminável de expressões. Hidetsugu. Depois de duas décadas, ali estava ele, do outro lado da mesa. Vivo.

FLASHBACK – EXT. – DESCAMPADO – DIA

Seus lábios reunidos num beijo em meio aos destroços. Um gesto desejado por anos, mas nunca concretizado por medo. E, enfim, aconteceu. Quanto tempo durou, ela não sabia estimar. Mas era seguro dizer que não foi tempo suficiente. O monstro que destruiu o robô ressurgiu subitamente, pegando a todos de surpresa. Eles nunca haviam enfrentado algo parecido.

O som de dez montanhas colidindo com o chão e a onda de choque que a arremessou por uma centena de metros colocaram um fim antecipado naquele beijo tão desejado. A explosão só não a matou porque alguma coisa acionou seu medalhão, iniciando a transformação no exato momento em que ela foi jogada para longe. Mesmo protegida, a força do impacto foi suficiente para fazer com que ela apagasse.

FADE OUT.
FADE IN:

As coisas foram voltando aos poucos. Primeiro, a dor: ao respirar, seu peito parecia pegar fogo, numa agonia que seguia o ritmo dos seus pulmões. A segunda coisa a voltar foi a visão: ao passar a mão direita no visor do seu capacete, ela notou uma grossa camada de fuligem, talvez lama, provavelmente uma mistura dos dois. Em terceiro lugar veio o som, na forma de um zumbido agudo que foi se transformando aos poucos em rugidos baixos e abafados, como se ela estivesse ouvindo tudo do fundo do mar. Tinha algo errado com seu braço esquerdo – ele simplesmente não obedecia e teimava em ficar caído, inerte.

A última coisa a voltar foi a memória: o monstro tinha atacado quando eles menos esperavam. Ela usou o resto das suas forças para levantar-se e tentar se localizar. Uma enorme cratera fumegante se estendia ao seu redor. Nenhum sinal de Hidetsugu ou dos outros. Na distância, ela avistou o ser gigantesco que havia destruído o Mega Patrulheiro. Ele virou sua enorme cabeça na direção dela, soltou um rugido ensurdecedor e, lentamente, começou a se aproximar.

As coisas ficaram confusas a partir dali. Ao longo dos anos seguintes, ela foi lembrando de flashes, pedaços desconexos, que foram sendo juntados num mosaico impreciso do que aconteceu. Fumaça por todo lado. O salto para o lado, evitando que uma garra gigante a esmagasse. A fuga apavorada, cada passo uma agonia excruciante. A visão de uma perna decepada, o fêmur muito branco saltando para fora. Pedaços de carne espalhados na lama, em meio aos destroços do robô. Todos mortos. Hidetsugu morto. E a próxima era ela.

INT. – RESTAURANTE CHINÊS – NOITE

Os fios negros dos cabelos de Hidetsugu estavam acompanhados de um pouco de grisalho. Ela decidiu que o tempo havia sido gentil com ele, trazendo um ar de sabedoria para aquelas linhas que costumavam ser tão sorridentes. Tanta coisa pra dizer, mas ela não confiava na sua voz. O aperto na garganta só aumentava enquanto as lágrimas desciam escondidas por trás do visor. Vivo.

Desde que ele havia ligado, ela não tinha se permitido acreditar. Mas agora os dois estavam ali, frente a frente. Pelo telefone, ele explicou a ausência tão improvável. Depois da explosão, ele havia acordado sem nenhuma memória do que havia acontecido: não sabia quem era nem onde estava. Do medalhão, nenhum sinal. Então a vida fez o que sempre faz, e o levou para longe, numa sequência de dias que acabaram por construir toda uma vida paralela. Até que, uma semana atrás, tudo veio à tona de repente. Ele estava vendo televisão, uma reportagem especial sobre o desaparecimento dos monstros há 20 anos. Entre as imagens, uma foto dela fora do uniforme. E as memórias voltaram numa avalanche.

INT. – APARTAMENTO – NOITE

Hidetsugu deitado ao seu lado na cama. Mas o capacete confinava seu rosto, sufocava o desejo, mantinha sua boca longe daqueles lábios grossos, daquela língua atrevida que ela não conseguia esquecer. O tecido rosa grudado ao corpo não escondia seu desejo. Mas, apesar de fino, seu traje impedia qualquer contato íntimo. Bastava um toque mais firme, um movimento mais brusco, e as fibras da roupa ativavam o modo de proteção: a fina lycra se transformava numa impenetrável armadura rosada, e descarregava eletricidade suficiente para convencer o atacante a não tentar novamente.

Os alienígenas que criaram o traje dos Patrulheiros haviam pensado em várias coisas, mas não em tudo. O capacete, por exemplo, não podia ser tirado sem ativar o medalhão e fazer o uniforme inteiro sumir. E ela não podia ativar o medalhão novamente. A segurança da humanidade dependia disso. Pelo menos quando ela precisava comer ou ir ao banheiro, o uniforme se adaptava de acordo. O problema era que ninguém podia se aproximar muito, senão as defesas já entravam em modo de alerta. Desde o incidente, ela havia se conformado. A vida não tinha tanto sentido num mundo sem Hidetsugu. Mas agora ele estava de volta.

FLASHBACK – EXT. – DESCAMPADO EM MEIO AOS DESTROÇOS – DIA

Ela se escondia entre os pedaços de metal retorcido, mal conseguindo ver o que estava acontecendo. Se a falta de visão era por conta dos seus olhos inchados de tanto chorar ou por causa da dor incessante, ela não sabia dizer. Só queria estar longe dali, acordar e perceber que tudo era apenas um pesadelo.

Uma sombra encobriu o sol de repente. O monstro estava diretamente sobre ela, farejando. Tudo parecia chegar ao fim. Com o sol coberto, ela percebeu um brilho azulado saindo por baixo dos destroços. Parecia a luz de um medalhão, mas era muito mais forte. Ao empurrar as ferragens, ela viu o núcleo blindado do Mega Patrulheiro. A peça supostamente indestrutível tinha um grande rasgo em sua lateral. Lá de dentro, a luz pulsava – chamando.

O monstro percebeu e desferiu um golpe com sua enorme garra. Ela não teve tempo sequer de pensar: esticou a mão direita dentro da fenda iluminada, buscando o enorme cristal que devia estar ali dentro. Então o mundo acendeu, e ela foi engolida pela luz.

De si, sobrou apenas a raiva, tão grande que era capaz de envolver até mesmo aquela energia infinita. E a vontade de que aquele monstro desaparecesse para sempre. Não só aquele, mas todos os outros monstros, do maior até o mais pífio, cada um deles banido pra sempre, sem deixar rastros.

Naquele instante iluminado, sua mente canalizou todo o poder do núcleo para dentro do seu medalhão. Nos meses seguintes, ela diria que o motivo foi altruísta: proteger a humanidade. Mas a verdade é que todo aquele poder foi usado com um único objetivo: vingança.

A luz obedeceu. Ao redor do planeta, os monstros foram jogados em outra dimensão. Mas a retaliação tinha seu preço: a partir daquele momento, todos estavam a salvo. Desde que ela nunca mais ativasse seu poder; desde que ela nunca mais saísse daquela forma rosa. Caso contrário, tudo seria desfeito. Os monstros tinham sido afastados do mundo. E ela também.

INT. – APARTAMENTO – NOITE

Aqueles fios negros. Hidetsugu. Vinte anos de vontade contidos por uma barreira rosa. Duas décadas de miséria e solidão na balança. Chega. Ela era uma Patrulheira do Universo. Lutar contra monstros era o seu destino. Segurando o medalhão com força, ela olhou nos olhos dele e decidiu. Num clarão, estava livre. Os dois se beijaram.

E os monstros voltaram, trazendo com eles sua vontade de viver.

FIM

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Sobre o autor

Nasceu no Recife e passava as tardes da infância assistindo a programas de TV japoneses. Mora em São Paulo, onde trabalha com publicidade e escreve nas horas vagas. É fundador do Vacatussa. Comentários: hello@mariolins.com

1 Comentário

  1. Mario Fernando Lins em

    Conto lido com a respiração contida. Muito bom Campeão, digno de um escritor consagrado. Leitura prazerosa e narrativa que prende a atenção do leitor.

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