A Trilha do Pequeno – Diogo Monteiro

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Morreu na hora, disseram. Eu entendi? Eu pouco entendia, então. Era o tempo do mundo imenso, quando as coisas se levantavam entre espalhadas extensões de nada. Nossas casas aquietavam perdidas, separadas da cidade por uma mata de reverência e cautela. Éramos doze, as crianças, geradas com a preguiça dos relógios de pêndulo, mais raras que as boas safras. Os adultos pouco podiam ensinar, além de tempos e modos de cultivar favores do chão. Letras e números eram missão de outros, mais além.

A cidade se acanhava no fim de uma trilha, ainda longe daquelas que começavam a incendiar o céu da noite com torres e medo do escuro. A escola primária nos recebia quatro vezes na semana, esperando esculpir o futuro em giz.

Senhora Aída, os óculos grossos, olhos amarrados no coque, pediu. É tarde (ou anoiteceu cedo demais?), fiquem, durmam; amanhã, primeira coisa, vocês voltam. Ela tentava lembrar por que a aula se esticara. Quanto tempo perdeu na janela ou caprichando a letra no quadro? Apertava na mão o livro de matemática e uma bíblia de couro grosso. Trago sopa e lençol quentes de casa, conto histórias até dormirem, dizia, já afastando a solidão.

André, o mais velho, evitou a barganha. Ninguém dormira em outro travesseiro, nunca. Fora de casa, quem garante ter fim a noite?

Nem uma vela à mão, empurramos a cortina idosa das árvores. Dentro dela, um quase não via o outro. Combinamos, nossa complexa esquemática, uma corda de mãos dadas. André adiante e eu, segundo mais velho, em último, por segurança. Cantávamos para espantar bichos e fantasmas, cada um em sua vez puxando uma música da memória. Era do menor, à minha frente, a voz mais alta. A minha saía flácida, eu escutava o silêncio atrás de mim, cheirava a respiração das coisas que moram onde não se vê.

A gente sabe, de algum jeito, sabe. Há aqueles habitando no escuro. Eles escutam e celebram no silêncio inchado, desde o dia quando deus se entregou a um sono cerrado e o mundo a seu vazio. Nós acendemos fogueiras, janelas e cidades, mas mal arranhamos a noite em volta. Eles se comprazem dos nossos passos cegos. Nós dançamos, rezamos e gritamos para afastá-los. Eles se amontoam numa arquibancada à nossa frente. Sabem, marchamos invariavelmente para seus braços. Esticam lábios e tendões. Lambem nos beiços a saudade do sangue.

Vinham no encalço? Nossas mãos marcavam o ritmo da cantoria, pendulando. O mais novo jogando meu braço para os lados, em arcos cada vez mais longos. Até que se desprendeu.

 

Não. Eu disse isso aquele dia, e todos depois. O pequeno se soltou, o pequeno se soltou; é a minha reza de pé de cama e é a minha insônia, porque uma ladainha batendo num muro de cobre, gritando na volta sobre mim.

 

Eu soltei o pequeno, corda rompida sem estalo. Porque, entre um verso e outro, no seu gole de ar, ouvi lá atrás o rastro de uma voz adulta. Não uma frase, nem palavra, mas o resíduo do som. Como se só um segundo depois eu percebesse ter ouvido, como aquelas vozes chamando na entrada do sono. Com um grito, eu larguei, e a ele seguiram os ganidos de todos os outros, barbante partindo em pedacinhos, e os passos desordenados de ratinhos, espalharam-se.

Reagrupamos. Improvisei uma chamada, e cada um respondia. Faltava. Chamei de novo. Faltava um. O mais novo. Convoquei, apelei, ameacei. A mata guardava resposta e luz. Uns queriam continuar, trazer os adultos, eles sempre resolvem. Eu rejeitei, não ia deixar o pequeno, minha máxima culpa. Eu pedia para ficarem, gritava para além da trilha.

Ele não respondeu, mas ouvimos. Primeiro distante, fraquinha, a risada boa do pequeno. Meu coração lamparina acendeu. Gritei mais alto, gritamos, pedimos. Mas ele apenas ria, agora mais perto. E do outro lado da trilha. E galhos e folhas quebrando sob passos ligeiros, girando perto e longe. Nós onze juntos e ele nunca se entregava. Assim iam as horas.

Um pirilampo acendeu longe e veio crescendo, amarelo. Os pais e as lanternas vinham buscar nossa demora. Os outros correram para contar. Eu fiquei, como para marcar exato de onde o pequeno sumira. Os adultos saíram entre as árvores, a chamá-lo, iluminando chão e chão. Duas mulheres nos agruparam em torno de uma jaqueira gorda. Também eles ouviam as risadas.

Coube à mãe, quando as mãos fracas do sol começaram a abrir as folhagens, rasgar a mortalha do grito. O guincho urgente engrossou num lamento choroso, cujo fôlego parecia vir da terra fria. Os espalhados se reuniram em torno da descoberta. Eu me apertei entre as colunas das pernas. A cinco passos adultos de onde o perdêramos, o pequeno fez uma cama. Num abreviado barranco, o fundo coberto de folhas e raízes grossas, ele deitava. A cabeça dobrada em um ângulo impossível. Aqueles lábios cujo roxo a pouca manhã enegrecia…

O mais me contaram depois, eu nada vi por muito tempo. Os homens levantaram o pequeno, os braços, pernas, rijos. Estátua de anjo. Aconteceu assim que nos soltamos. Enquanto ouvíamos seus passos e risos, aqui, além, a morte avançava o abraço de mármore.

O mundo ficou ainda mais longe.

Eu fiquei pro silêncio, pra conversa de dentro. Para fora, eu soava: o pequeno se soltou. O cupim escavava minhas veias. No primeiro vento, o mundo me trouxe para longe, migrei. Outros imitaram e vieram depois. Trazem notícia, mas baixam a voz ao falar do caminho batizado, sem placa, de Trilha do Pequeno. “Ainda se ouvem as risadas?”, a pergunta nunca sai do ensaio.

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Sobre o autor

Diogo Monteiro nasceu no Recife-PE, 1978. É jornalista, sem saber bem o que isso significa. Já emplacou sorrateiramente contos em revistas como Vacatussa, Continente Multicultural e Café Colombo, além de antologias como a Tempo Bom da Iluminuras.

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