Trilogia Suja de Havana – Pedro Juan Gutiérrez

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Trilogia Suja de Havana é o típico livro que só deveria ser vendido em sebo. Vendê-lo numa mega-store de shopping center é tão descabido como vender champanhe no carnaval de Olinda. Isso porque o livro é sujo, violento, repulsivo e deprimente. É poético.

Pedro Juan Gutiérrez sabe como despertar aversão numa pessoa. Segue o mesmo estilo de John Fante e Charles Bukowski, mas com um peso de rabugice tremendamente maior. Não tem o aspecto de aventura junkie de Fante ou Bukowski, é muito pior, é verdadeiro, fede a mijo. Fante e Bukowski parecem light, higiênicos, sexo com camisinha perto de Pedro Juan.

A diferença talvez venha do ambiente: uma realidade brutal e repugnante bem parecida com a apresentada por Paulo Lins em Cidade de Deus e Rubem Fonseca no conto Feliz Ano Novo. É a mistura do estilo dos junkies americanos com a miséria social da América Latina.

Vivendo na Cuba dos anos 90, durante o boicote econômico imposto pelos Estados Unidos, Pedro Juan descreve a miséria, a fome e a falência do sistema público do país através do seu pequeno universo. É a partir do seu dia-a-dia e dos acontecimentos que o cercam, que ele aproveita para tecer comentários, denunciando de maneira indireta toda a degradação humana da população cubana.

Escrito em forma de contos, segue uma seqüência não-linear, mas que se completam, mantendo uma certa ordem, construindo uma visão ampla e particular de Cuba. Os personagens aparecem, depois somem, mas isso não se torna um problema, Pedro Juan conta sua história em episódios, de maneira simples e com frases impactantes merecedoras de grifo.

Em meio a tudo isso, Pedro Juan ainda consegue demonstrar sua sensibilidade. Escrito num período de reavaliação, ele expõe todos os conflitos e angústias, crises e desilusões de alguém que chegou aos quarenta anos e decidiu mudar de vida. Estraçalhado por amores do passado, ele vai aprendendo a conviver com a solidão, se endurecendo, tentando sobreviver sem luxo, à base de sexo, rum e maconha.

Thiago Corrêa
lido em Dez./Jan. de 2005
escrito em 25.01.2005

: : TRECHO : :
“Eu estava relaxado. Com muito sexo, e muito tranqüilo de espírito. Nada atormentado. Bom, tormentos sempre há. Mas agora consegui afastá-los um pouco. Deixei-os a uma certa distância no futuro. É uma boa maneira de torná-los indistintos e não escutá-los. Eu tinha uma mulher em casa. Havia recuperado alguns quilos. E vivia. Sem nada para fazer. Sobreviver, creio que se chama isso. Deixar-se deslizar e não esperar nada mais. Muito fácil.” (p. 128)

: : FICHA TÉCNICA : :
Trilogia Suja de Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 1a. edição
358 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

10 Comentários

  1. como assim, vendido em sebos?
    vc acha que lojas de livros só devem vender obras com florzinhas para travestis enrustidos?

    não entendi…

    este livro é maravilhoso, sai do mundo judeu, babaca e rico. um tapa na cara dos idiotas.

  2. eu li o livro e adorei a dissertação aqui exposta, mas concordo com o giovani, não entendi porque vender esse livro somente em sebos..?!
    o livro é bastante impactante, somente para aqueles que tem “estômago forte”, pois seu realismo brutal foge completamente da literatura romantica e comum que estamos acostumados.

  3. Vicente Couto em

    Alôooo, minha gente!

    É óbvio que o crítico não está sugerindo que o livro seja vendido apenas em sebos, ora.
    Que espécie de leitores são vocês que não conseguem discernir uma sugestão objetiva de uma alegoria textual. Esta imagem apenas ilustra e reforça sua opinião sobre o universo tratado na obra e suas principais características estilísticas.

  4. O livro, já intitula o tipo de conteúdo a ser lido e analisado. Ser vendido a sebo pode até ser uma maneira de se referir ao seu conteúdo. Mas o livro é mais que sujeira, leva o leitor a uma realidade nem um pouco ficticia e que é inrustida no mundo contemporâneo que banalisa a livre expressão e glorifica unico e exclusivamente as pessoas que vivem longe da margem da sociedade.
    O livro é a transparência única e crua. A mais perversa e insana visão de mundo. O mundo sujo em todos os seus aspectos, de político a humano.
    Acredito que sejam poucos os que conseguem expressar realmente o que se passa no mais profundo modo de ver o mundo exterior e interior.
    Livro pra quem tem estômago e mente aberta para compreender o conteúdo.

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  6. o fato é que Pedro Juan é verdade, ébrio e maravilhoso em todos os textos, sua realidade suja e imoral nos arrepia os pêlos!

  7. Jayme Ribeiro em

    Livro fantástico! Pedro Juan conseguiu se vingar da ditadura cubana e de todo o sofrimento com este livro denúncia. Há sexo e tudo mais…. Mas verdade sobre a ilha que ele revela é IMPRESSIONANTE….

  8. Fernando Correia em

    Esse livro devia ser obrigatório nas universidades brasileiras. É um tapa verdadeiro e cruel sobre a vida sob uma ditadura insana que o partido dos trabalhadores e alguns artistas de esquerda, provavelmente escocesa, insistem em recomendar para os outros

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