Tudo que é sólido desmancha no ar e a gente ainda respira

0

por Niti Merhej

Tomada pela curiosidade e estimulada pelas aulas de Antropologia Urbana, decidi ir à manifestação do dia 16 de Agosto. Para isso, busquei me livrar de alguns preconceitos que eu pudesse ter, para realmente observar os discursos sem muito juízo de valor. Contudo, enquanto eu me despia dos meus valores, encontrava uma dificuldade enorme em me vestir. Nunca havia reparado a minha necessidade de afirmação a partir de ícones de esquerda, nem a predileção por camisetas vermelhas. (Adorno e Benjamin me mandam um salve!). Achei um vestido azul e branco, que não deixam de ser cores da bandeira do Brasil, mas não me associariam com os atores da manifestação.

No caminho, famílias inteiras vestidas de verde amarelo, com crianças no colo e em carrinhos, encheram o metrô. A cena lembrava um pouco os dias de Copa do Mundo, não só pelas camisas da seleção brasileira, mas pela quantidade de crianças e idosos que se dirigiam, junto comigo, à Avenida Paulista.

Quando cheguei, os dois lados da avenida estavam tomados, com concentração maior entre o vão do MASP e o Conjunto Nacional. A primeira diferença que observei foi o fato de que não era uma caminhada, os trios elétricos estavam estacionados.

Fiquei parada por um instante, observando, meio sem saber o que fazer. Fosse um ato de trabalhadores, além dos olhos marejados de emoção, eu saberia – disse a voz da esquerda ao meu ouvido. Mas, logo em seguida, efeito do esforço do distanciamento, lembrei: quem disse que não tem trabalhadores aqui? Assim, fui ao encontro deles. Por  não estarem identificados por categorias, como acontece nos protestos sindicais, acabei começando por aqueles que, de fato, estavam trabalhando.

Conversei, primeiro, com uma moça negra, que vendia camisetas verde-amarelas escrito Fora Dilma e Fora PT. Seu discurso, diferente do que eu esperava, por conta dos panelaços só acontecerem em bairros ricos da cidade, era de descontentamento com relação ao governo e, sobretudo, apoio ao ato. E isso se repetiu em quase todas as conversas com os vendedores de água e refrigerante, de milho verde e o único senhor que vendia churrasco. Além dos trabalhadores de ocasião, os ambulantes tradicionais da Paulista também estavam por lá e encontrei uma moça da qual sou cliente. Com ela, a conversa foi mais pessoal, e por me conhecer revelou que os manifestantes se espantavam por ela possuir maquininha de cartão. Contou também que depois do espanto, pediam para dividir em três vezes. Aliás, todos os vendedores disseram que venderam muito pouco. Deve ser a crise, tão alardeada, mas pouco mencionada na manifestação.

Após andar por território conhecido, era hora de incursionar pela multidão. De fato, havia a presença massiva de pessoas que visualmente seriam identificadas à classe média branca, mas não só e não tanto quanto eu imaginava. Assim como os discursos não eram tão sem sentido, como minhas fontes de informação favoritas defendiam. Eram muitas vozes, desde pedidos de volta FHC, elogios e declarações de amor ao juiz Moro e referências à Lava Jato, até vozes que pediam o  fim do presidencialismo e o debate sobre o parlamento. Todas elas, porém, se uniam quando o comando gritava Fora Lula e PT. Mais que Dilma, Lula era o inimigo de todos ali. Retratos seus, com vários adjetivos pejorativos, estavam por toda parte na Paulista.

O Hino Nacional, reforçando o nacionalismo, foi tocado algumas vezes enquanto estive por lá e, nesses momentos, estimulada pelas camisetas, lembrei dos verde-amarelistas de Plínio Salgado. Coincidência ou não, havia grupos portando a bandeira integralista.

Na Avenida Paulista, na minha leitura, estava a História de São Paulo. Transformada, ressignificada a partir de outras personagens, mas a síntese de um processo que qualquer paulistano, que conheça sua literatura, sua História, e tenha os seus 30 anos ou mais, iria reconhecer. O bandeirantismo paulista com o slogan de defesa do Brasil, presente em 1932. Os interesses econômicos sob o símbolo do nacionalismo. E, exceto a pecha de corrupto, que à época não poderia ser-lhe imputada, pois não havia chegado ao poder; todos os adjetivos destinados a Lula eram os mesmos de 1989, 1994, 1998. Assim como os xingamentos aos petistas, aos comunistas e esquerdistas, presentes em minha vida desde que comecei a me identificar como marxista. Em São Paulo, não consigo concordar com o enunciado, oriundo de narrativas à esquerda, de que os manifestantes são ignorantes ou desconhecem a História do Brasil. Esse enunciado, provavelmente estimulado por cartazes com frases sem noção que circulam nas redes sociais, é um tanto simplista, em minha opinião. Acho que essas manifestações dialogam com a História e as posições conservadoras do povo brasileiro, em especial o paulista, o tempo inteiro.

Apesar de ter encontrado correspondência histórica e literária nos discursos, houve um momento em que não achei precedentes, sobretudo,niti na minha história. E por isso fui completamente tomada pela emoção. Moradora desde sempre da periferia, militante de esquerda, o enunciado da polícia sempre foi o de repressão e violência. O soldado amarelo de Vidas secas. Embora já soubesse do fenômeno das selfies com policiais, o que testemunhei foi algo surpreendente. A presença da polícia era ostensiva, até maior que em atos que envolvem multidões; mas sua linguagem era totalmente diferente, mesmo em eventos mais descontraídos como carnaval, Copa do Mundo e shows de rock, ou na manifestação para o impeachment de Fernando Collor, que tinha a mesma simpatia da elite. Os policiais não abordavam os manifestantes, nem mesmo os vendedores ambulantes, que trabalharam sem qualquer intervenção. A tropa de choque, ainda que em posto de trabalho para impedir a passagem, não mantinha a face enrijecida, que por tantas vezes vi de perto em protestos estudantis e greves de trabalhadores. Os manifestantes dialogavam com ela de uma forma que só consigo adjetivar por inusitada. O endurecimento dava lugar a convidativos sorrisos e uma relação de camaradagem extremamente inteligíveis para mim.

Em torno do caminhão do Choque, tentei entender melhor o que acontecia e perguntei a um pai, cujos filhos estavam no colo dos soldados, o motivo de tirar foto de suas crianças com eles. A resposta, contrariando minhas expectativas de um relato sobre heroísmo e segurança, limitou-se a um vago “porque é divertido”. Divertido? O Choque? A tropa de choque não pode ser divertida! – pensei, em dúvida se externei isso ou não.

Assim, à minha mais profunda revelia, constatei que eu, comunista, contra todo ícone opressivo, estudiosa da palavra, mantenho a mesma relação de Fabiano com o Soldado Amarelo. Eu nutro “respeito” à autoridade policial. Respeito que nasce do medo e provoca ódio, mas me impede de achá-la, por exemplo, divertida. Mesmo que o Soldado Amarelo chame para um carteado e seja simpático. Eis que, diante daquela teatralidade, a partir dessa constatação, o Soldado, com um bebê no colo, se desmanchava e se desconstruía aos meus olhos. Mas, ao contrário do que possa parecer, se fazia muito mais ameaçador.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!