Um detalhe em H – Fernando de Mendonça

1
[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Fernando de Mendonça nasceu em 1984, em São Caetano do Sul, São Paulo. É mestre em Letras e doutor em Literatura Comparada, pela Universidade Federal de Pernambuco, instituição que publicou, em 2012, A Modernidade em Diálogo: o fluir das artes em ‘Água Viva’.

Livro: Um Detalhe em H foi lançado pela editora independente Paés em 2012. O livro traz um texto de introdução assinado pelo professor Lourival Holanda, que oferece uma interessante análise da obra de Fernando.

Tema e enredo: O livro apresenta o personagem-narrador Hugo, um jovem analisa lembranças e procura interpretar os eventos dramáticos a sua volta, especialmente a relação com seu pai e sua vizinha, Helena.

Forma: A narrativa é fraturada, conduzindo o leitor através de lembranças difusas e detalhes miúdos e significativos. Quase não há diálogos: é o silêncio que amplifica os temas do livro.

[/learn_more]

[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Os detalhes que ficam

Costuma ser revelador ler o primeiro livro de um escritor. É um texto que geralmente sugere dilemas, motivações e arranjos que, nos anos seguintes, podem ser modificados, adaptados pela maturidade. São livros que indicam verdades e ficções, e talvez por essa condição ainda sem forma definida sejam tão essenciais para o entendimento de uma autoria em formação.

A leitura de Um detalhe em H, primeiro livro do paulista radicado em Pernambuco Fernando de Mendonça, apresenta uma primeira investigação em forma de romance; um breve drama sobre a passagem imprecisa da juventude para a vida adulta, um livro que sugere biografia, em sentido amplo e disfarçado, e criação – os primeiros passos de uma autoria, um intrigante instante de clareza.

O livro apresenta o personagem-narrador Hugo: uma criança que ainda não possui maturidade para interpretar com precisão os eventos dramáticos a sua volta, mas de alguma forma sente a densidade dos fatos que o envolvem. Hugo percebe o vazio de seu pai, o coração caloroso de sua vizinha, Helena; a ideia de um garoto sem os meios para entender a complexidade que o cerca é trabalhada com delicadeza.

Fernando usa características recorrentes na literatura contemporânea brasileira: tempo fraturado, lembranças vagas e aleatórias, o desconforto acionado pela recordação de eventos recentes. Quase não há diálogos, é o silêncio que amplifica a narrativa. A força deste romance parece ser a maneira como o autor opera leituras prévias, temas e formatos conhecidos, trabalhando essas tendências a partir de perspectivas pessoais, aproximando cânones como Proust e Hilda Hilst.

Depois de um prólogo de cores fortes, talvez acentuado na proposta de uma drama existencial, Hugo repassa sua trajetória, buscando nas lembranças informações que o ajudem a compreender o ritmo acelerado de mudanças e a intensidade de certos sentimentos. Hugo revisa seus atos, avalia os elos estabelecidos com familiares e amores, como forma de mapear sua própria identidade; um percurso de dúvidas e afirmações.

Como o título sugere, o detalhe é essencial dentro da narrativa; não apenas o personagem Hugo se detém em pequenos instantes, retirando da observação de miudezas do cotidiano um significado especial para compreender seus rituais de passagens (atenção especial à relação com a natureza e à sessão de cinema de O Rei Leão), mas também a própria narração do autor dedica atenção ao detalhamento das cenas, dos eventos, das passagens.

O detalhe parece ser o que de mais importante o livro nos oferece, nos trechos particularmente bem executados e difusos. Em certos momentos parece pesar o excesso de informação, um texto que detalha ao ponto de exagero virtuoso a construção das cenas; em outros a observação aproximada de instantes que modificam alguma emoção interna é repassada através de detalhes essenciais, que insinuam alegorias intensas e breves.

É preciso ressaltar, também, o esforço na produção desta edição. É um romance lançado por uma editora independente, a Paés, que optou pelo primeiro texto ficcional de um autor jovem; um tipo de aposta coletiva bem executada, que sobrevive sem a publicidade necessária a esse tipo de mercado e empreendimento; um prazer a ser descoberto meio ao acaso, através dos rastros que sugere.

Lido em setembro de 2014

Escrito em 21.09.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/08/hugo-viana.jpg[/author_image] [author_info]Hugo Viana é jornalista, é o responsável pela cobertura de literatura no jornal Folha de Pernambuco.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Um detalhe em H

Fernando de Mendonça

Editora: Grupo Paés

1ª edição, 2013

122 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Espirro. A pequena coceirinha que irritou meu nariz lá no fundo acabou me fazendo espirrar. Meu pai volta-se pra mim assustado. Não me havia percebido ali. Vejo um pequeno brilho abaixo de seu olho esquerdo e acho que é um simples reflexo de luz, mas ao levar a mão apressada ao rosto, o brilho é enxugado, permitindo-me descobrir ser o pequeno brilho uma grande lágrima. Vejo-o sair da sala carregando uma perceptível vergonha pelo fato de ter sido flagrado. Mas sua vergonha não é maior que minha surpresa. Vi meu pai chorar.”

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Diogo Guedes, no Jornal do Commercio, em 1 de agosto de 2013

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2013/08/01/a-minuciosa-estreia-de-fernando-de-mendonca-92120.php)

“A narrativa mostra a infância do personagem-narrador Hugo, em uma penetração densa na sua memória. Aqui, não se trata de “ler o mundo”, mas de ler como se dá a presença de Hugo no universo que o cerca, entendê-lo como observador e observado ao mesmo tempo. Olhar o mundo, na obra, é uma forma de se tornar o mundo e é por isso que o personagem parece transbordar nas próprias descrições materiais e mentais que empreende.”

Cristiano Ramos, no blog de Cristiano Ramos, em 1 de agosto de 2013

(http://blogdecristiano.com.br/blog/?p=888)

“Muito capaz que esse mesmo leitor-modelo, tão arguto e sensível, sinta-se incomodado com o excesso de adjetivação.  Há momentos do livro que arriscam demais no adorno, sentimental ou descritivo, a beirar a cafonice, contrariando as expectativas estéticas criadas pelo próprio romancista. Em tais passagens, fica o inevitável juízo de que algo deveria ter sido sugerido por metáfora, ou mesmo silenciado, pois findaria mais expressivo.”

Patrícia Tenório, no site Patrícia Tenório, em 19 de junho de 2013

(http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809)

“Fernando plasma o tempo e o espaço na linguagem, plasma a linguagem à medida que plasma o livro, palavras aparecendo sob nossos pés assim que nossos pés tocam o chão, pois não há chão.”

Rosangela Neres, (des)cortinada palavra, em 27 de outubro de 2013

(http://rosangelaneres.com/2013/10/27/resenha-um-detalhe-em-h-de-fernando-de-mendonca/)

“As novidades narrativas do romance, os apagamentos, ausências, substâncias, presentificam o mistério do detalhe, que é o desafio para nós proposto, seus leitores.”

Cecília Shamá, Outros Críticos, em 23 de setembro de 2013

(http://outroscriticos.com/os-pequenos-detalhes-de-que-sao-feitos-os-sonhos-e-a-vida/)

“Não é um livro fácil para quem não está acostumado a narrativas descritivas tanto do universo físico que cerca o protagonista como do estado de espírito de Hugo: cada detalhe conta para aqueles que são solitários, cuja doçura na vida depende do carinho do pai que lhe dá mais do que você precisa em termos de afeto, do pedaço de bolo que se torna uma tarde inteira vivida.”

[/learn_more] [learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

Entrevista

Entrevista de Fernando de Mendonça ao Vacatussa (setembro de 2014)

[/learn_more]
Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

1 comentário

  1. Pingback: Dossiê: Novos autores de Pernambuco - vacatussa

Comente!