Um livro – Marcelino Freire

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Lá longe,
onde “Quero nascer”
a morte diz.

Murilo Mendes

Faz silêncio em São Paulo.

São Paulo é uma cidade silenciosa.

Um cemitério de astronautas. Nada se ouve, uma nuvem. Uma asa. Estou em casa, à boca de um livro, aberto.

Para onde foram os carros?

As buzinas que buzinavam?

Uma ou outra palavra me foge. Discretamente, saio à caça. Estou apaixonado, mais uma vez, pela poesia de Murilo Mendes. Aqueles anjos, tantos demônios.

Derrubaram os helicópteros.

As motos mortas.

Nenhuma mosca de gente. Acho que, de repente, o mundo deu meia-volta. Cansou de rodar por aí.

Peso o meu pensamento. E ele está leve.

Saio à igreja para comprar um pão.

Sim, tudo virou igreja, templo. Qualquer estabelecimento, uma meditação. Não entendo onde enfiaram a cidade. Nem memória há no corpo do asfalto.

Ali mesmo, onde morreu um ciclista, nenhuma sombra.

Caminhões não caminham.

Cachorros não cagam.

O pão, debaixo do meu braço, parece consagrado. O café, moído. Falta sinal à internet.

Vai ver foi isto.

Tudo virou invisível.

No espelho do quarto, entro. Sem fazer barulho. Mesmo que quisesse, nem o espelho fala.

Velho o espelho.

No mesmo sossego, o meu reflexo.

Acho que estou contaminado, sim, hoje, por algum verso, que lançou sobre São Paulo uma luz de fim de mundo.

Qual verso?

É porque escrevi para você ontem falando sobre seu aniversário, a vida longa e a saudade que nos aperta – eu, em meu apartamento de 42 metros quadrados, e você residindo na floresta.

Já falei para você vir morar aqui.

Aí você diz que não acostumaria nunca com o ritmo dos viadutos, os relógios motores, as febres.

Tudo passa com o tempo, eu digo.

Nada é mais urgente, saiba, do que um coração vivendo perto do outro. Para juntos podermos suportar tamanha solidão sozinhos.

Acho que estou perdendo o pulso, devagarinho.

O que fizeram com os pombos?

Arrulhos tristes toda manhã.

E os fios de alta tensão?

Volto aos versos de Murilo Mendes. Por que não há uma rua com o nome de Murilo Mendes? Digo: em minha esquina, nossa esquina, logo ao lado. Talvez em Minas.

Rio Grande do Sul.

Colômbia.

Criciúma.

Se São Paulo parou, as ruas também não fazem mais parte deste Brasil. As canoas, em algum lugar, afundaram.

Você ainda não se convenceu de que eu sou capaz de estacionar todas as vias para ver você chegar de uma vez.

Posso apostar que a floresta é mais barulhenta do que São Paulo. As dores dos bichos às unhas dos predadores. Os bacuraus caçadores. Os grilos poluidores. Os bandos de urubus urbanos. Fluorescentes vagalumes.

Está um deserto a vida.

Sem solução, a metrópole agoniza.

Meu amor por você é maior do que todos os prédios. Maior do que todos os arames. As janelas azuis. Maior do que a Rua Augusta. Os jardins subterrâneos.

Muito mais fundo do que o jazigo do rio. Meu amor é uma limousine perdida. Afogada. Igual àquela que foi encontrada, faz tempo, com dois noivos boiando dentro.

Amor maior.

Até a morte, enorme.

Pensa bem. É preciso “pensar o pensamento”. Eu sempre digo: longe de qualquer raciocínio, breca, ouve, brega, o teu coração.

Ele para.

Ele para São Paulo.

Acredita, acredito.

 Meu amor só não é maior do que um livro.

Marcelino Freire nasceu em Sertânia-PE, em 1967. Vive em São Paulo desde 1991. Escreveu, entre outros, o recém-lançado romance Nossos Ossos (Record). Para saber mais sobre o autor, acesse: www.marcelinofreire.wordpress.com

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