Um quintal, um sofá, um litoral – Augusto Darde

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Existe um pedaço de terra e mato que elegi meu
Não como proprietário legal – não está em meu nome
Não guardo em gavetas a lei toda de sua inscrição
É, no máximo, um quintal
Onde muito pisei e de cujos ventos sei as entradas

Tão importante quanto esse espaço
É a paisagem que o rodeia
Pois foi ali que apalpei horizontes
E é ali que volto ao sair

Por que motivo escolhi esse quintal
Não sei ao certo
Na prática, nada me traz
A não ser essa dor úmida no corpo
De ruídos e gosto de encanamento novo
Que sugere formas no peito e passa a apertar na cabeça e nos olhos
Depois do choro fácil ao lembrar

Teria cada pessoa neste mundo enorme
Escolhido um quintal, um quarto, uma sala quente de janta
Um sofá, um portão
Um riacho, um litoral, que seja
Apenas para entender perfeitamente
Na qualidade exata
O que chamamos saudade?

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Sobre o autor

Nasceu em Lajeado-RS, 1984. É mestre e doutorando em Literatura Francesa pela UFRGS. Autor dos livros As bergamotas começaram (2014), Pequenos poemas na prosa (2015) e O creme de avelã e outros estímulos (e-book, 2017).

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