Uma Medeia – Aline Arroxelas

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Eu menti quando disse que não precisava
De heróis,

Menti

Dizendo que não acreditava nos heróis,
Nem nas bravuras
De feitos incontestáveis de criaturas
Acima e afora de mim;
Tão distantes, alheias de mim,
Estampadas em livros, noticiário
Capas de revista
Campeões de porta de cadeia
Palcos, televisão, comícios,
Igrejas
Este mundo, cheio de ídolos.

Não é isso o que busco na disciplina dos gestos,
Da boca perdida, dos olhos afoitos?
O recato, o impulso domado
A serviço de algo maior, melhor,
O gosto duro de vitória e conquista, e glória.
Por exemplo, acordo:
O dia ainda espreguiça, e não permito
A permanência da cama
A conveniência dos dramas
Domésticos
O cultivo
De inimigos preferidos.

Resisto à sobremesa e ao adultério.
Tremor, terror noturno, visões de grandeza
Me invadem como lembrança
De incerta beleza.
Não condescendo,
Não perdoo erros, e os acertos
Nada mais são do que obrigação.

No fundo, aspiro a heroína:
Conjugação mágica de pós –
Às vezes uma pitada de sal ajuda na receita –
Cuidadosamente passada a limpo
Ocasionalmente pinçada do limbo
De memória
Além de ser mãe extremosa,
Diligente funcionária, talvez condecorada
E esposa honesta,
Como todas certamente são.

Já quase a expirar: contenda em vão.
Claro está que é somente
No desatamento louco –
Desvãos –
Na desregra, liberta, solitária,
Fúria e tempestade,
Que me permito encarnar
Esta fera íntima
Besta que amo imolar.

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