A duração do sorriso

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A duração do sorriso*
Thiago Corrêa

Na foto estou sorrindo, ela também. Era um sábado de carnaval, estávamos de saída, prestes a subir as ladeiras de Olinda. Ela toda de vermelho e amarelo, eu com chapéu de bobo da corte cheio de guizos nas pontas. É assim que apareço na foto que ganhei dela em um porta-retrato de metal. Hoje ele está enferrujado, empoeirado, perdido no meio de livros e pilhas de papel em cima da minha mesa. Mas a gente continua sorrindo.

Os olhares diretos para a câmera indicam que estávamos desafiando o tempo. Através daquela lente, acreditávamos que nossos sorrisos se reproduziriam nos rostos de um casal de velhinhos, sempre que eles resolvessem folhear a vida. Eles teriam uma legenda para cada imagem do álbum, que, naquela altura, seria escrita com fragmentos perdidos da memória e camadas de remendo criadas pela distância do tempo.

Dessa foto, talvez a gente apenas lembrasse que o sábado era dia de encher a cara na concentração do Hoje a mangueira entra, onde os amigos se encontravam debaixo de sol para brindar o início do carnaval. Pelas cores da roupa dela, também recordaríamos da agonia que era flutuar no meio da multidão na saída do Eu acho é pouco, de como era bom beijar escondido embaixo do dragão e do sufoco de subir o trecho da ladeira da Misericórdia – “ai, ai, ai; que ladeira do carai”.

Ou talvez a conversa seguisse para o dia em que nos conhecemos, quando ela apareceu fantasiada de boneca na prévia do Enquanto isso na Sala de Justiça. Eu repetiria pela milésima vez que foi ela quem me chamou pro cantinho sob o pretexto de comprar uma cerveja. E ela me daria uma mordida no braço, como fazia toda vez que eu contava minha versão. Eu faria drama dizendo que doeu, que ia ficar a marca, e ela diria que era o castigo por ser mentiroso.

Quando reencontrarmos essa foto, porém, o mais provável é que a gente perceba que os ponteiros afiaram aqueles sorrisos em espinhos e concretizaram nossos olhares em pontes inacabadas. Sinceros naquele instante, mas já tão deslocados quanto fantasias em outras épocas do ano. Porque tudo se revelou um amor de carnaval, que se estendeu na rotina e fez nossos sorrisos se diluírem em compromissos, desculpas, solidão e saudade.

* Crônica publicada no No. 64 do Pernambuco – Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado, em junho de 2011

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 Comentário

  1. Leonardo Garzaro em

    Caro Thiago,

    Acredito que a crônica ganharia qualidade se certas passagens fossem sugeridas, e não tão explicitadas. Parece um vírus que afeta mais escritores homens que mulheres: habituados a levar a vida em linha reta, deseducados em chegar pela tangente ao cerne, tendemos a lançar toda a ideia de uma vez no texto, ao invés de deixar o leitor se apaixonar por cada sorriso.
    Claro, funciona em muitas obras. Thomas Mann e Kafka não fariam de outra forma. Mas para a ideia deste texto específico, que evoca memória e reencontro, dois tempos de ação – quando a luz do flash salta e quando o ferrugem condena tudo – a sugestão parece funcionar melhor. No segundo parágrafo você opta por revelar toda a mágica. Todo o resto é só saudosismo, que é interessante sob uma perspectiva regional e humana, mas o interesse pelo texto já está perdido. Após o segundo parágrafo tudo se torna um grande lamento, um amor de carnaval perdido mas sem grande interesse para os envolvidos.
    A qualidade nas imagens são notáveis. Os dentes afiados são interessantes. O ferrugem parece bem utilizado. Mas fico com a sensação que o todo poderia ser melhor.
    Vou ler seus outros textos.

    Um abraço,

    Leonardo

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