Umbigocêntrico | Como evitar um livro ruim?

7

Como evitar um livro ruim?
Thiago Corrêa

Quando se tem a sorte de ter duas mãos e a vontade de ser uma pessoa melhor, é bem provável que você acabe segurando um livro ruim. Leitores são presas fáceis, que nem ratos inebriados pelo cheiro de gorgonzola. A traição vem pela capa, o comentário de um amigo ou colega de trabalho, resenha de alguma publicação ou desejo de seguir novos caminhos além das recomendações da imprensa, do circuito de eventos e dos prêmios literários. Não importa, a escolha por um livro sempre implica no risco de ser pego pela ratoeira da mediocridade.

E quando isso acontece, meu velho, por mais habituado que você esteja, nunca é fácil pular fora. É um dilema, parece a hora de terminar um namoro. Gera sentimento de culpa, você vai se lamentar e se arrepender mesmo sabendo que aquela era a decisão certa a tomar. De um jeito ou de outro, não importa. Se continua, fica pensando que deveria usar aqueles minutos pra ler Dom Quixote, Moby Dick e Machado de Assis. Mas, se abandona, também vai se recriminar por ficar na metade e não dar chance para o autor lhe surpreender.

O jeito então é evitar chegar a esse ponto, abandonar o barco antes criar apego. Faça uma vistoria, igual a que você faz durante a paquera. Da mesma forma que observamos se a gatinha fala alto, usa roupas estranhas ou curte música sertaneja; procure reparar no estilo do livro que você está flertando. Analise a capa, observe a qualidade da impressão, o tamanho da letra, o tipo da fonte. Depois passe para a orelha, mas cuidado: tente manter distância, porque é por ela que sempre começa a sedução. Dos livros e das mulheres.

Não se iluda com os trechos de comentários da Time e da Newsweek, lembre-se da quantidade de filmes ruins que você já assistiu e traziam na capa aspas deles dizendo Sensacional, Inesquecível e Melhor filme do ano. Faça uma pesquisa antes, veja quem é o autor, procure descobrir que outros livros ele já escreveu. Confira a lista dos mais vendidos, perceba a tendência do mercado e fuja dos genéricos de temática árabe, vampirismo emo e conspirações sobre a igreja católica. Se é para fazer merda, vá direto ao ponto, pegue O Código Da Vinci, Crepúsculo e O caçador de pipas. No caso de livro teórico, observe a bibliografia, veja se o autor estudou direitinho antes de querer ensinar os outros.

Desconfie de títulos metidos a polêmicos e a engraçadinhos, capas chamativas com detalhes em ouro ou que lhe desperte uma sensação de fofura. Livros são produtos, igual a biscoito e cerveja. Então não troque um Tezza por uma capa de melancia ou pijama, pois você não abriria mão de um pacote de Bono ou uma garrafa de Heineken só porque as embalagens do Treloso e da Nova Schin estão mais fofas. Agora, claro, essa regra não vale para as belezuras das edições da Cosac Naify, que merecem ser admiradas independentemente do conteúdo.

Mas aí chegamos a outro ponto, sempre observe que editora está por trás do livro. Se uma marca conseguiu ser sinônimo de qualidade, é porque ela se preocupa com o que oferece aos seus clientes. No universo literário é a mesma coisa, isso vale tanto para as editoras quanto para os escritores. Sim, no fim das contas, os nomes dos autores também viram marcas, algumas mais confiáveis do que as outras. Num mundo saturado de informações, onde até seu Zé da esquina tem um blog para publicar versos, valorize os que preferem ficar em silêncio quando não têm o que dizer.

Você pode até evitar o uso de toda essa peneira e só apostar no certo, esquecer o que acontece à sua volta e ler apenas os clássicos já estabelecidos. Ou então acessar o Vacatussa, ler nossas críticas e evitar o risco de ser um desses acadêmicos zumbis que só conversam com alguém no chá das cinco. Mesmo assim, não garanto nada, nem sempre dá certo, às vezes um livro bom fica na peneira e outros ruins passam que nem água. Se esse método fosse infalível, pode ter certeza que eu não teria pensado na idéia para escrever esta trilogia.

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

7 Comentários

  1. Luis Narval em

    Com a intenção de atrair o leitor e convencê-lo a levar o livro de contos que acabo de publicar de forma, digamos, independente, fiz o seguinte: ao invés de preencher as “orelhas” com uma crítica positiva e condescendente de algum amigo escritor ou crítico, o que na maioria das vezes não reflete a verdadeira qualidade ou precariedade do texto, resolvi colocar trechos de alguns contos nas ditas orelhas. O clima, o tom, o estilo, a intenção já estão todos ali. Se soar bem ao ouvido do leitor (porque acredito que é com o ouvido que se lê) aumento as chances de o livro ser comprado e efetivamente lido, que, na verdade, digam o que disserem, é o que interessa. Com isso penso não iludir ninguém. E é claro, também não me iludo, pois dependendo da “voz” do autor, a bala pode sair pela culatra, já que a afinação do ouvido dos leitores médios oscila num registro mais ou menos padrão, digamos, numa escala de 0 a 10, entre 0 e 3.

  2. AFFF.
    Na esteira do autor renomado mas conteúdo não agradável… reluto para terminar
    O sol também se levanta, no Ernest… Me desculpem, mas porque sou burra ou ansiosa.. acho UMA CHATICE!
    Atraída pelo título O PAU, fui inventar de ler fernanda young.. que apesar da forma simpática e sedutora de formar parágrafos, não me acrescentou nada!. que raiva perder meu tempo nisso!!
    Sigo lendo meu Demian, do herman.. estou amando. De qq editora, com qq fonte.. recomendo!
    E o lobo da estepe já aguarda na estante.

  3. Meu brother, já havia lido essa critica, há quase 5 anos atrás… Ano que publiquei essa estoria. Na época que li, lembro que concordei com as críticas, até construtivas… A gente escreve e envia, mas como é um formato 100% virtual, não fica legal uma porrada de páginas… Então – eu inexperiente ainda – meu livro foi cortado quase que pela metade pela editora, pois realmente o caboco ficar com a bunda sentada lendo um livro com 100 paginas no monitor, tem que ter saco… Depois dessa crítica, passei a ler o blog vacatussa. Mas mesmo assim houve vacilos na versão literaria do samba esquema noise… Como essa da internet no inicio dos anos 90, foi foda! Caguei mesmo. Publiquei recentemente um livro no clube de autores, os ultimos dias de samara, se quiser conferir, te mando gratuitamente lógico, a versão e-book do livro. A estoria se passa no Recife. Se tiver interesse em fazer a crítica, fique a vontade! É só me mandar teu email que te mando o e-book.
    http://www.clubedeautores.com.br/book/40556–Os_ultimos_dias_de_Samara
    abração

Comente!