Uniforme – Marco Polo Guimarães

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Então. Aquela menina me perguntou muito séria se era possível a gente amar e odiar uma coisa ao mesmo tempo. Claro que sim, eu respondi. Veja meu caso com os uniformes. Por um lado eu os detesto porque todos nós, uniformizados, parecemos ser a mesma pessoa, nossos traços individuais, tanto os físicos como outros mais intangíveis, se dissolvem na uniformidade da tropa, afinal, uniforme é para isso mesmo, dar uniformidade a um corpo múltiplo. Deixamos de existir nos detalhes de nossa individualidade que nos tornam únicos, diferentes, podendo essas características serem vistas como algo positivo ou negativo, depende de quem olha e como olha, isso não nos ensinam, mas a gente aprende vivendo, não é mesmo? Então. Mas não é só isso que envolve o uso de uniformes, veja só, o uso de uniforme tem muitos lados positivos, o que nos leva a amá-los, pois é também através do uso de uniformes que a gente se sente parte de algo maior, algo que nos justifica para além da nossa irremediável insignificância, somos mais fortes fazendo parte de uma unidade coletiva, podemos até nos sentir capazes de realizar coisas que geralmente não temos coragem de levar avante. Com uniformes nos sentimos mais resplandecentes, porque junto com o uniforme geralmente vem uma orientação de seguirmos um comportamento padrão, próprio aos que usam uniformes, somos parte de um todo maior que funciona como uma máquina poderosa. Mais uma vantagem: a uniformidade nos camufla, nos livra dos inimigos individuais, os perseguidores, os predadores que nos cercam e nos miram, a cada um de nós, individualmente, mas em meio a uma tropa uniformizada fica mais difícil para eles nos identificar e assim corremos menos riscos. Então. Os uniformes, também, têm funções práticas. Por exemplo: você não precisa ficar perdendo tempo pensando no que vai vestir. E, pelo uniforme, podemos saber claramente quais as posições hierárquicas das pessoas que nos cercam, o que vai nos impedir de cometer erros que podem gerar constrangimento e até punição. E o uniforme nos leva a uma postura ereta, digna e elegante, não se imagina um sujeito de uniforme todo curvado, andando displicentemente, cambaleante. Além disso, estaremos sempre impecáveis pois ninguém em sã consciência vai se apresentar num uniforme sujo, fedorento, desbotado, remendado, amarrotado, amarfanhado, enxovalhado. Tem mais, ainda: com o uniforme ganhamos um significado na vida, já que quem usa uniforme está submerso numa ordem geral, o que, como já se disse, nos livra de indecisões quanto ao comportamento mas também vai além porque nos livra de inseguranças sobre a razão e finalidade de estarmos aqui no mundo, qual o sentido disso tudo. E isso é coisa de suma importância, todo mundo sabe, mas nunca é demais repetir. Então. Fica desde já claro que se pode detestar e adorar, na verdade mais adorar do que detestar, embora as duas posições continuem existindo com o mesmo peso; enfim, como dizia, fica claro que se pode detestar e adorar o uniforme ao mesmo tempo e desse exemplo podemos pegar inferência para outros aspectos da afetividade em nossos relacionamentos com coisas e pessoas. Então. Não sei ao que aquela menina estava querendo se referir ao fazer a pergunta, mas não posso deixar de pensar que dei a ela uma boa resposta, respaldada por uma explicação nítida, e por isso não entendi porque ela pareceu ficar aborrecida comigo, como se eu estivesse zombando dela ou de algum modo não levando realmente em consideração o seu problema ou ainda como se eu achasse que ela não merecia uma resposta adequada por ter formulado uma pergunta inadequada, o que foi totalmente alheio às minhas intenções, é claro. Enfim, por melhores que sejam nossas intenções, nunca podemos agradar a todos. Será que ela vai passar a me evitar por causa disso? Então. Fiz o que pude. Mas nem sempre o que a gente pode é o suficiente para as outras pessoas, sempre prontas a se mostrarem críticas. Isso não nos ensinam, mas a gente aprende vivendo, não é mesmo? Então.

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Sobre o autor

Marco Polo Guimarães nasceu no Recife–PE (1948). Trabalhou em jornais de Recife e São Paulo. Publicou o livro Autópsia do bípede (Confraria do Vento). Lançou o disco Ave Sangria e tem músicas gravadas por Ney Matogrosso, Lenine e Elba Ramalho.

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