Urgências – Carla Carvalho Alves

0

Ia assim apressado, numa madrugada fria de junho, como recordava perfeitamente tantos anos depois. Pegou uma condução em direção ao centro, outra até o bairro e um circular, que passava pela construção. Pão com manteiga e um pingado, se chegasse até às sete, depois costumava acabar o leite e às vezes também a manteiga. Mas o pão nunca lhes faltaria, garantia o gerente da obra.

Recostou a cabeça na janela do ônibus e foi sacudindo a conversa da noite anterior. Mari agora reclamava de tudo. Ele não conseguia entender aquilo. Ela que queria um filho, que rezou tanto, que fez até promessa pra ficar grávida, andava assim, choramingando por qualquer bobagem. Estava de licença-maternidade, podia ficar o dia todo em casa com o menino, mas nem jantar fazia mais. As noites eram desertas e os domingos exaltados, mas ele não sabia se era caso de separação. Mari voltaria a ser como antes, pensava. E quase acreditava mesmo nisso, quando a via amamentando tranquila, sentada na cadeira de praia embaixo do abacateiro, como se não houvesse o mundo. De repente, sem que mudasse vento ou caísse folha, sem que cachorro nenhum latisse, ela levantava aflita e ia para o quarto chorar.

Apesar de tanto desgosto, naquele dia tinha pão, manteiga, café e leite. Tudo tão quentinho, que ele achou que o dia poderia ser bom. Conferiu o quadro de avisos e viu destacado em amarelo: “Dirceu, favor procurar o Sr. Joel, com urgência”. O mestre de obras estaria no oitavo andar, mas ele não pegou o elevador. Foi assim ensimesmado pelas escadas, adiando as urgências daquela fria manhã de junho. Talvez pensasse em Mari, em Pedro, nas contas da casa. Certo mesmo é que parou no sétimo andar para ver a cidade. Diziam que ela apequenava-se vista de cima, mas pra ele parecia ainda mais monstruosa. Estava ali apoiado no parapeito inacabado, enganando a pressa, quando um fato singular pra qualquer humana razão aconteceu. A caneta, que ele guardava no bolso da camisa, soltou-se da roupa, pairou uns segundos na altura dos olhos e subiu lentamente até alcançar o teto, depois caiu no chão, veloz e livre como qualquer corpo. Dirceu, sem poder respirar, olhou abismado à sua volta, pegou a caneta, examinou-a desesperadamente, sem encontrar explicação consoladora. Revirando-se em contradições e incertezas, subiu mecanicamente ao oitavo andar e não ouviu a ameaça de demissão feita pelo Sr. Joel.

Saiu atordoado, deparou-se com Jorge e outros dois companheiros. Juntou os resquícios de coerência e contou-lhes o caso. Eles riram um pouco, depois despediram-se com tapinhas nas costas, como quem ouve uma piada ruim. Jorge ficou pra trás, olhou consternado pra ele, disse que acreditava na história, acreditaria mesmo que fosse um bloco de concreto no lugar da caneta, porque o conhecia desde criança, porque trabalharam juntos em tantas obras. Mas aquilo não mudava vida de ninguém. Que diferença fazia uma caneta cair simplesmente ou sair por aí, naquele desvario de realidade? Não se ficava mais rico, nem mais jovem. Melhor era desenganar os enganos e cuidar para não faltar o pão de todo dia.

Depois de perder-se pela cidade por um tempo que já não sabia dizer, Dirceu passou em um supermercado, comprou uma rosa e voltou pra casa. Sentou-se com sua Marília debaixo do abacateiro, tomou o filho nos braços e contou serenamente a sua delirante experiência. Marília sorriu feliz como já não sabia que era. Ficaram assim abraçados vendo o mundo agigantar-se naquela fria noite de junho.

Compartilhe

Sobre o autor

Nasceu em Lavras-MG, 1972. Mora em São Paulo desde 2006. Tem pós-doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, tirou o 1º lugar no Concurso Colação de Estudante (FUMP–UFMG, 1999) e 3º lugar no Monteiro Lobato, SESC-DF, 2016.

Comente!