Vamo pro México – Astier Basílio

0

vou tirar fotos de tu botando a mão no rosto, de tu me dando o dedo e tu se rindo e de tu prestando atenção e de tu distraída, de tu estirando a língua, vou comprar um vestido colorido pra tu e vou botar tu pra dormir ao redor de uma fogueira

vou apostar contigo quem bebe mais uma garrafa de alguma marca vagabunda que só se venda lá num rabo de rua de la Ciudad de México – e vou perder pra você – vou cozinhar pra tu e tu vai pedir pra voltar pra casa. E tu vai me xingar de filho da puta e socar meu peito até se cansar e tu vai ficar quase um dia todo sem falar comigo até q não vai aguentar e eu vou fazer vc rir

a gente vai acordar cedo, eu vou levar tu pra uma birosca, tu com o olho fechado de preguiça, dizendo pra mim, “pega o mapa”, eu pegava, aí tu, com o olho fechado dizia: “vamos pra… cá”, e botava o dedo, ainda com o olho fechado, aí a gente pegava as mochilas e ia pra lá de pau de arara comendo tortilha e ki-suque

a gente ia chegar de tardezinha nesse povoado, não tinha nada, só um cinema abandonado, uma igreja e a rodoviária, a gente dava uma volta pela cidade, aparecia uma cigana, eu tava muito cansado, mas tu pedia pra eu chamá-la, eu dizia que não, para com essa brincadeira chata, eu olhava tua cara de quem queria me por em perigo, tu mesma chamava, a cigana vinha, tu dizia q era pra ela ler a minha mão, eu dizia q não tava interessado, mas a cigana disse q precisava ler a minha mão, e dizia algo no meu ouvido

a gente ficou o caminho da volta todo (7 horas de ônibus) com tu me aperreando pra eu dizer o que danado a cigana falou no meu ouvido, e eu tentei disfarçar com 3 mentiras durante 3 intervalos de tempo e tu descobriu q nas 3 vezes eu tava mentindo, no dia seguinte, quando tu tava escovando os dentes, eu entrava e dizia: ela vai te abandonar. Tu olhava pra mim e dizia “o quê?”, eu explicava que foi isso o que a cigana disse no meu ouvido, mas aí eu contei que assim que ela tinha me dito isso, eu respondi: eu já sabia. Por isso que tô com ela

quando os nossos dólares acabassem, a gente ia ter um emprego temporário numa plantation, e vai colocar os colchonetes um ao lado do outro no dormitório, vai estar escuro e a gente vai ouvir os grilos, tu vai chamar meu nome, e dessa vez sou eu quem vai estar abusado, vou perguntar: o que é? tu vai dizer, se abraçando com perna, sorriso e a cosquinha do teu cabelo, “tu gostou daqui”, eu vou responder, gostei, vamo dormir, aí vai passar um tempinho, tu vai chamar meu nome de novo, eu vou responder com abuso, aí tu vai me perguntar, “quanto tempo tu passaria aqui comigo”, eu diria vamo dormir, aí tu insistiria, “me diz, quanto tempo tu passaria aqui comigo”, eu diria, não sei, a vida toda, vamo dormir

Compartilhe

Sobre o autor

É de Campina Grande-PB. Mora em Moscou, onde estuda russo. É dramaturgo, poeta e ficcionista. Publicou mais de dez livros, entre os quais Funerais da fala (2000), Finais em extinção (2009) e Falsas ficções (2015).

Comente!