Viagem de ida e volta – Gilvan Lemos

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Já era mais de meio dia. Os cascos do cavalo estalavam nas pedrinhas miúdas do caminho. Olhei o céu nublado. Uma nuvem negra aproximava-se lentamente, vinda não sei de onde.

– Vai chover…

– Uma neblinazinha de nada.

Zé Panta, velho empregado de meu pai, portador do cavalo que me conduzia de volta à casa paterna – depois de uma ausência de quase três anos – soltou as rédeas da sua burra baixeira e procurou nos bolsos a faquinha para cortar o fumo que tinha em uma das mãos. A seda já se encontrava pregada nos seus lábios grossos e tremeu quando ele falou:

– Tá no fim, o inverno. Um ano bom como poucos. Quem plantou seu milho não perdeu um caroço, garanto.

Amassava o fumo picado, com os olhos presos nas mãos que se movimentavam sem pressa.

– Logo que começou o inverno, eu disse a seu Numeriano: “A farturança vai ser boa. Os caboclo esse ano tiram a barriga da miséria”. Jacinto Velho, do sítio do meio…

E passou a falar de coisas que logo me desinteressaram. Volvi os olhos para os campos viçosos que nos cercavam. Para os sertanejos castigados pelo sol, não há nada mais belo do que ver a mataria verde. A serra ao longe avivara minha mente. Pensamentos loucos, recordações longínquas dançaram no meu subconsciente; lembranças já esquecidas vieram ao meu encontro, como se estivessem ali na estrada apenas esperando a minha volta.

O lombo cinzento de uma preá, que cruzou a estrada como uma flecha, roubou-me a atenção por um instante. E um galo de campina fez-me lembrar as arapucas que eu armava embaixo dos juazeiros.

Um novilhote crioulo pulou de uma moita. Correu na nossa frente, quebrando o silêncio da mata com o ruído do seu chocalho rouquenho.

– É marca do velho Desidério.

E Zé Panta reiniciou a prosa:

– Tá bem de vida. Conheci Desidério na miséria, com uma mão na frente outra atrás, arrastando uma cachorrinha magra que só tinha o combuco. Tentou a sorte, arranjou uma terrinhas com o coronel Pedro (aqui pra nós, Desidério não é boa bisca: quase deixa o bom coronel de tanga) e hoje já tem onde se enterre.

Zé Panta prendeu o cigarro nos dedos e mandou para longe uma cusparada sarrenta.

– É isso mesmo. Desidério um dia inventou uma arenga com Mané da Várzea. O gado dele tava estragando o roçado de Mané. São vizinhos. Mané falou com ele: desse jeitinho. E Desidério nem por coisa. Aí discutiram e lá vai Mané da Várzea, que não cai em conversa, bota uma tocaia e atira em Desidério. O tiro pega bem aqui, na boca lá dele. Desidério não espera pelo segundo. Caboclo frouxo. Sai na carreira pra botar jucá na ferida. Vira o frasco na boca, chega, engole. Um gosto ruim danado. Aí ele se lembra de olhar o remédio…

Zé Panta bate a cinza do cigarro “pai João”.

– … e toma um susto de morrer: tinha bebido carrapaticida pensando qu’era jucá. E o homem vira o pescoço com a macacoa, grita, se rasga, bota pra morrer… e tá, tá, tá e pei, pei, pei… pra finalizar a história, não teve nadinha. Tá bonzinho aí de seu. – Faz uma pausa: – O que não mata, engorda…

À medida que avançamos, o caminho mais se tornava familiar. Aqui um mandacaru anoso, ou um imbuzeiro de copas arrastando ao chão; acolá, riachos cantando a eterna cantiga das águas que correm. E eu me emocionava revendo tudo aquilo. Era como se estivesse retornando ao passado, revivendo os despreocupados dias da minha infância.

Atravessamos uma velha porteira quase inutilizada pelo cupim. O moirão cairia se alguém o empurrasse. Também a cerca de pau a pique era uma amostra do descuido que reinava naquela fazenda.

– ‘Stamos em terras do coronel Pedro. Daqui pra “Imburana” são duas léguas das de beiço.

– Sim, eu sei. Mas escute, Zé Panta, esta é a fazenda do coronel Pedro?! A “Maravilha”?!

E apontei horrorizado a porteira e as cercas em ruínas, sem querer acreditar no que viam meus olhos.

– É ela mesmo. Isso aqui tá abandonado. Depois que a mulher morreu, o coronel não liga mais nada. Perdeu o gosto de tudo. Só fala na finada.

Bom velho, o coronel Pedro da “Maravilha”. O nosso mais próximo vizinho. Vínhamos de casa brincar com os seus filhos. Ele e a sua senhora nos tratavam com delicadeza. Botavam o gramofone para tocar. Em toda a redondeza, só na “Maravilha” existia uma “máquina de falar”. A “Maravilha” era uma fazenda bem tratada. A melhor da região. Bem que merecia aquele nome. E agora estava naquele estado.

– E os filhos do coronel, que fim levaram?

– Andam por aí: uns formados, outros estudando. Antônio foi pra Minas, esse tá bem, com uma fábrica de laticínios. Josoé quis levar o velho pro Recife, mas ele não quis ir. Diz que não há cristão que o arraste. Quer morrer aqui mesmo.

Começamos a divisar o telhado da casa. Panta reatou:

– Dr. Lula, o filho do meio, só tá esperando que o velho estique a canela, pra tomar conta da fazenda.

Com pouco mais, passávamos pela casa do coronel. Já a nuvem negra nos havia alcançado e nesse momento começou a neblinar. Levantei a gola do paletó, pensando no desagradável percurso que iríamos fazer, debaixo de chuva, quando um “psiu” me fez voltar a cabeça. O velho Pedro acenava da janela, chamando-nos insistentemente. Aproximamo-nos.

– Se apeiem, se apeiem pra passar a chuva!

Entramos. A casa era a mesma que eu conhecera em criança. Os quadros eram os mesmos e eram os mesmos o ambiente, a luz e o ar. Se não me engano, até a arrumação dos móveis era a mesma. Sobre uma mesinha (que agradável surpresa!) o gramofone, o mesmíssimo gramofone do coronel Pedro, executava uma velha valsa. Sorri de alegria e ao mesmo tempo tive vontade de chorar.

Disse-lhe quem eu era. Abraçou-me cordialmente e mandou fazer um “cafezinho pros hóspedes”.

E ali ficamos a conversar, enquanto passávamos, um a um, os discos na velha “máquina de falar”. Foi então que notei um disco separado dos outros. Peguei-o e, quando ia botá-lo no gramofone, o velho arrebatou-me da mão, dizendo-me com pesar:

– Este não, este não. Era o disco predileto da falecida. Só ela tinha o direito de botá-lo.

Zé Panta fez-me um sinal. A chuva havia passado. Despedi-me do velho. Uma nesga de sol conseguira vencer a cerração. Desvirei o coxim e montei no cavalo.

Deixei a casa do coronel pensando que ele não removia nada da “Maravilha”, porque assim se sentia mais próximo da lembrança de sua esposa.

***

Findas as minhas tão aproveitadas férias, lancei-me de novo às costas do alazão. Mais uma vez percorria aquela estrada. Olhava desanimado a paisagem agora estorricada pelo sol, sentindo falta da prosa pitoresca do Zé Panta. Atravessei os marcos da “Maravilha”, pensando no abandono em que deveriam estar as suas terras, depois do falecimento do coronel Pedro. Mas ao transpor a porteira, estaquei abismado. Na casa grande havia um borborinho de gente que entrava e saía; que carregava tijolos, madeira e sacos de cimento; que fazia barro, que cerrava e aplainava madeira.

Desci do cavalo e me aproximei, sem atinar com o motivo daquela “profanação”. Entre os trabalhadores, dando ordens e afobado, reconheci o dr. Lula, terceiro filho do coronel. Veio ao meu encontro, logo que me viu. Suava e não parava de falar.

– Ah! Não sabe como tenho trabalhado! Isso aqui vai ficar um brinco! Quero mecanizar a “Maravilha”! Aliás, é plano velho. Nunca o levei avante, por rabugice de meu pai.

E puxou-me pelo braço, satisfeito por encontrar alguém que apreciasse sua grande obra.

– Vamos lá atrás. Quero-lhe mostrar alguma coisa. Estou construindo uma casa enorme; já montei um cata-vento; etc. etc. Mas vamos ver!

E, realmente, eu vi a transformação que se operava na fazenda. O dr. Lula comprara um trator, fizera a planta de uma piscina e iniciara os preparativos para canalizar a água do arroio. A construção do “palacete” estava bem adiantada. Os operários aproveitavam algum material da velha casa. Olhei para ela penalizado, lembrando-me do coronel Pedro. A casa velha morria aos poucos enquanto que a “intrusa” firmava-se nos alicerces, orgulhosa, ciente da sua superioridade, dominando a vista da paisagem.

Afastei-me rápido, com medo do progresso.

Na cozinha as negras divertiam-se com os discos do coronel.

Deixei a “Maravilha” com a música que o velho gramofone executava:

Era meu lindo jangadeiro
De olhos da cor verde do mar
Como ele também traiçoeiro
Pois deu a outra o seu olhar…

Tocavam o disco predileto da falecida…

Gilvan Lemos nasceu em São Bento do Una-PE (1928-2015). Sua obra é composta por romances, novelas e livros de contos, entre os quais destacam-se Jutaí menino, Emissários do diabo, O anjo do quarto dia e Morte ao invasor.

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