Vida e Época de Michael K – J.M. Coetzee

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PRÓLOGO

Autor: J. M. Coetzee nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, África do Sul. Tem mais de 23 livros de ficção publicados, entre romances, volumes de contos e autoficções; além de obras de ensaios e cartas. É o primeiro autor a vencer dois Booker Prize (em 1983 e 1999). Em 2003 venceu o Prêmio Nobel de Literatura.

Livro: Vida e época de Michael K é o quarto livro de J. M. Coetzee. Foi publicado em 1983, neste mesmo ano venceu o Booker Prize.

Tema e enredo: Ao saber que sua mãe doente, deseja passar seus últimos dias na cidadezinha do interior onde nasceu, Michael K percebe os reflexos de um conflito em seu país. Cansado de esperar pelo passe obrigatório para poder viajar, K resolve levar sua mãe num carrinho de mão improvisado.

Forma: O grande mérito de J.M. Coetzee é tratar a situação da África do Sul de maneira sutil, a partir do olhar de Michael K e pelas dificuldades que ele encontra em sua trajetória. O conflito em si praticamente não aparece. A gente percebe que ele existe, sabe que alguma coisa está acontecendo, mas através de quem não está diretamente envolvido com o conflito.

CRÍTICA

Simples e Poderoso

Vida e Época de Michael K é um livro simples e poderoso. Seu início parece despretensioso, a história se desenvolve naturalmente, os acontecimentos vão se desmembrando de uma maneira tal, que é como se não pudessem ser de outra forma. Sem surpresas, mistérios ou quaisquer expectativas para as páginas seguintes.

Tudo flui espontaneamente. A leitura segue fácil, flutuando pelas palavras. Quando percebemos, já estamos envolvidos com a história de Michael K. Ao saber que sua mãe doente, deseja passar seus últimos dias na cidadezinha do interior onde nasceu, K percebe os reflexos de um conflito em seu país. Cansado de esperar pelo passe obrigatório para poder viajar, K resolve levar sua mãe num carrinho de mão improvisado.

Aos poucos, durante a viagem, vamos descobrindo a situação da África do Sul, em meio a um conflito, descobrindo suas injustiças, incoerências e os ânimos de seus cidadãos. É este o grande mérito de J.M. Coetzee. A situação da África do Sul não é tratada de maneira incisiva, nós a percebemos de uma maneira bastante particular, a partir do olhar de Michael K e pelas dificuldades que ele encontra em sua trajetória. Assim, o conflito em si, praticamente não aparece. A gente percebe que ele existe, sabe que alguma coisa está acontecendo, mas através de quem não está diretamente envolvido com o conflito.

A denúncia a esta situação é bastante sutil. Desde o início, o livro possui uma postura política, mas isto só se torna realmente explícito, quando K encontra Robert num campo de concentração. Robert tem uma cruel noção do mundo em que vive, é ele quem dá nome aos burros, esclarece o que está se passando, conta suas amargas experiências e acaba exercendo influência sobre K e sobre nós, leitores. Robert é o porta-voz dos oprimidos, um excelente orador, dono de frases reveladoras e impactantes que merecem ser sublinhadas. É um personagem sólido, capaz de se mostrar quem é, através de uma única palavra.

Michael K, por sua vez, é um personagem intrigante. Ele se apresenta como alguém normal, às vezes ingênuo, com atitudes conscientes e uma consciência crítica, por conta da sua condição social. Confuso e atordoado, K age de maneira não-convencional, toma atitudes que seriam impensáveis pela sociedade, mesmo que estas sejam óbvias, compreensivas e, em muitos casos, a coisa certa a fazer. Seu raciocínio é simples, infantil até, mas capaz de elaborar pensamentos que incidem diretamente sobre as questões e seus sentimentos, põe o dedo na ferida sem complicar e se perder nas explicações. Sua simplicidade chega a lembrar o texto de Bukowski e John Fante.

Já na segunda parte, quando um outro personagem assume a narração, K é visto como um bobo, um débil mental. É bem verdade que, na primeira parte, podemos vê-lo usando sua feição para despistar que alguém descubra sua capacidade de pensar, mas na segunda parte, a discórdia é instalada, K em alguns momentos parece mesmo ter perdido o sentido das coisas.

O jeito introvertido de Michael K é a maior arma contra os abusos de poder. Mesmo sem lutar, sem participar diretamente da guerra, mesmo sem os discursos inflamáveis de Robert, K age sem pretensões, sempre em razão dos seus sentimentos, o que acaba despertando as pessoas à sua volta para a irracionalidade do mundo. Michael K é uma espécie de Mahatma Gandhi, que vence e transforma os absurdos do seu mundo através da insistência, mesmo que esta seja lenta e dolorosa.

Lido em Jun. de 2004
Escrito em 27.07.2004


Relação com o autor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Vida e Época de Michael K
J.M. Coetzee
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 2a. edição
211 páginas

TRECHO

“Podia viver aqui para sempre, pensou, ou até morrer. Nada aconteceria, todo dia seria igual ao outro, não haveria nada a dizer. A ansiedade que pertencia ao tempo de estrada começou a sair dele. Às vezes, ao caminhar, não sabia se estava acordado ou dormindo. Dava para entender que algumas pessoas tivessem se retirado para ali e se cercado com quilômetros e quilômetros de silêncio; dava para entender que quisessem legar o privilégio de tamanho silêncio aos filhos e netos para todo o sempre” (p. 58)

OUTRAS OPINIÕES

Vinícius Jatobá, Terra Magazzine, em 27 de novembro de 2008

(http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3355056-EI12510,00-Vida+Epoca+de+Michael+K+de+JM+Coetzee.html)

“A estratégia narrativa de Coetzee é praticamente a soberana responsável pelo que há de excepcional nesse romance. Dividido em três partes, a primeira e última possue um narrador que simplesmente registra, sem grandes adjetivações e num tom neutro e distante, o que acontece com Michael e ao seu redor: o que sente, o que toca, o que vê, como age. Raras vezes aquilo que K pensa é revelado, e esse pouco que chega ao leitor se mostra, mesmo diante de situações drásticas, de uma simplicidade constrangedora.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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