A vida engoliu a ficção

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Quase um ano. Se duvidar, até mais. Uma infinidade de dias – e dentro deles incontáveis acontecimentos – sem criar uma linha sequer. Digo criar porque escrever, escrevi demais. Dezessete dias de folgas acumuladas, fruto de horas extras dedicadas a escrever, escrever e escrever mais. E acho que foi exatamente isso. A realidade do jornalismo esgotou as chances de ficção.

A perplexidade, o assombro e a desesperança foi roubando o tempo da invenção e da metafísica  num 2016 tão difícil. E não é que agora o mundo esteja melhor. Não está. Mas é como se fosse tempo de acomodação – não no sentido do conformismo, mas do adaptar-se: pronto, deu merda, vamos agora respirar e seguir.

E, nesse levar a vida, veio a notícia. Uma boa, pra variar. A bolsa de criação literária que a gente havia aprovado no Funcultura era agora algo concreto. E, portanto, era preciso criar, não só escrever.

E eis que tenho tentado resgatar a ficção e o lirismo lá do fundo do poço, de onde eles parecem vir ainda meio empoeirados e capengas. Daqui até o começo do ano que vem, uma série de contos chamada de Olho Mágico precisa existir. Queiram ou não queiram os juízes e os políticos, os empresários, os burocratas – esse povo que às vezes tira da gente o espaço da poesia e do desejo de invencionice.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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