Vó – Maria Eduarda Pepe

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Química pura é a faísca que salta quando causo o atrito no fósforo. A ponta acesa do cigarro dialoga com minha cabeça… quase sinto o filete branco de fumaça ganhar forma de gente e dizer, de uma forma extremamente particular, de uma forma que só fumaças podem dizer, e nem a própria mente humana – capaz ainda de resgatar seu significado – é capaz de dar-lhe tessitura linguística. Um código, um pacto, um acordo de plena compreensão entre ambas as partes, sem que haja, decerto, a necessidade de racionalizar o abstrato. E esse filete branco me encara com seus olhos gordos, e os dentes arreganhados vociferam pensamentos antes ocultos até mesmo por mim. Avanço a casa a passos lentos e largos, aspirando com paciência cada retrato nostálgico que consigo capturar em vida. Azar ou sorte ter a plena certeza e sensação de estar vivendo dentro da moldura de uma futura lembrança que tentarei, com todas as minhas forças, resgatar com nitidez. Os pés que não levantam do chão, o chiado que os chinelos de minha avó causam ao utilizar o chão de casa como sua passarela. Passeia por toda a casa com a precisão tátil de seus chinelos de dedo, tateando como um cego todos os cantos da casa como certa de que, em vida, é preciso deixar os vestígios para os que precisarão lidar com as memórias e a morte. Chego na cozinha. O filete branco cavando meus neurônios, a inércia atinge meu físico estado de letargia: do outro lado da cozinha é minha avó quem corta as verduras, delicadamente, como quem acaricia um recém-nascido. Sento na cadeira da mesa de jantar e encaro as costas duras e curvadas de minha avó. O filete branco agora correndo em minhas veias, contorce, paulatinamente, o pedaço de carne redondo que carrego no rosto. Meus olhos enchem-se de extremoso afeto, e posso quase segurar com minhas próprias mãos o sentimento que suscita em meu corpo: os olhos lacrimejando; as pernas, como o resto do corpo, aceleram e pausam formando a melodia desesperada de minha dor. Estou vivendo dentro de uma moldura. Minha avó cortando as verduras é a imagem de meu avô cantando Nelson Gonçalves enquanto lava os pratos do jantar. Minha avó cortando verduras é o barulho insuportável da piaçava varrendo o cimento que me acorda às seis da manhã, mas eu já não me importo com o incômodo. Minha avó cortando verduras é o barulho da piaçava escovando o cimento, pacto secreto entre eu e a vida: a pintura que vai se formando com a junção de meus cinco sentidos e decreta meu estado pleno de nostalgia. Minha avó.

O rosto enrugado revelando tamanha solidão é o mesmo que, sabendo que venho almoçar em casa, deixa lasanha no forno, prepara o suco com frutas do quintal, e clama, sôfrega, silenciosa e bela: eu te amo.

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Sobre o autor

Nasceu no Cabo de Santo Agostinho-PE (1996) e vive em Olinda. É atriz, escritora e estudante de Letras na UFPE. Através de seus textos tenta agregar experiências autobiográficas junto a seu flerte com o teatro e literatura.

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