Os 80 anos de Zé do Caixão

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Talvez o nome José Mojica Marins não seja imediatamente reconhecido pelo leitor, mas sua maior criação certamente será lembrada: Zé do Caixão, o homem de barba, capa e cartola pretas, unhas enormes, expressão cruel e aparência maligna. O diretor de clássicos do terror como À meia-noite levarei sua alma (1963), Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966) e, mais recente, Encarnação do demônio (2008), completou 80 anos em março e parece importante ressaltar não apenas a importância de seus longas-metragens para a consolidação no Brasil de um gênero em geral visto com desconfiança, como também a maneira como ele inspirou diferentes gerações de atores e diretores por seus filmes e métodos de criação.
“Mojica é uma figura única no cinema brasileiro, ele meio que inventou o gênero terror no Brasil”, diz o jornalista e escritor André Barcinski, coautor da biografia Maldito com o também jornalista Ivan Finotti – obra lançada originalmente em 1998 e que ano passado ganhou uma nova versão com 200 novas páginas, pela editora DarkSide. “Zé do Caixão periga ser um dos personagens mais famosos do cinema brasileiro, e Mojica fez isso tudo de maneira independente, sem nunca estar filiado a alguma tendência ou escola. Ele foi contemporâneo de vários movimentos do cinema brasileiro, a Vera Cruz, o Cinema Novo, a Pornochanchada, mas sempre ficou meio à margem”, explica Barcinski.
A carreira de Mojica é muito associada aos feitos nefastos de seu principal personagem, mas sua trajetória artística vai muito além da extensão das unhas sujas do excêntrico Zé do Caixão. “As pessoas conhecem Mojica como cineasta de horror e esquecem que ele fez filmes de muitos estilos”, lembra André. “Ele fez o primeiro faroeste em cinemascope brasileiro, fez musicais, filmes para crianças, filmes eróticos, filmes de detetives. Ele tem uma carreira muito eclética”, ressalta. “Ele teve a sorte de ter os filmes lançados nos EUA nos anos 1990, isso repercutiu forte lá fora. Tim Burton por exemplo veio para cá neste ano e disse que queria conhecer duas coisas: o Carnaval e Zé do Caixão”, diz o escritor.
O crítico e professor de cinema da UFPE Rodrigo Carreiro ressalta a importância da experiência circense na adolescência de Mojica e detalha aspectos técnicos que pautaram seus filmes: “Ele fez prólogos usando narradores explicando a história que vai ser contada; personagens que viravam pra câmera e falavam com o espectador, algo que Woody Allen viria a fazer depois. A própria linguagem dos personagens era interessante: uma linguagem meio erudita, que soava bizarra, tinha um efeito cômico, algo que vem do quadrinho e da literatura de horror, um vocabulário erudito que vem do romantismo do século 19”, detalha.
Os filmes de Mojica parecem grandiosos não necessariamente pela técnica ou virtuosismo, mas talvez pela maneira como dialogam com os espectadores, conseguindo se conectar em diferentes níveis com o público. “Os filmes dele em geral trazem a visão de uma classe normalmente esquecida, a visão do proletário. Ele veio do povão, teve uma formação social e econômica diferente dos cineastas brasileiros daquela época. Com seus filmes dos anos 1960 dá pra perceber que ele é um cara que conhece muito bem os subterrâneos brasileiros, as dificuldades das pessoas das classes sociais menos favorecidas”, explica Barcinski.

LIVRO

A escrita de Maldito foi um desafio pela ausência de informação sobre Mojica nos anos 1990. “Tinha muita coisa falsa ou errada. Por um lado, o fato de não ter quase nada sobre ele nos atrapalhou no começo, pois queríamos ler bastante pra ter base. Por outro lado essa ausência foi de certa maneira libertadora, fez com que a gente começasse a pesquisa do zero”, lembra André. “Entrevistamos Mojica, parentes, vizinhos, e fomos ampliando: pessoas que conheceram ele na infância, gente que fez os primeiros filmes com ele. Conseguimos histórias inéditas, o que todo biógrafo quer. Com a pesquisa descobrimos, através de certificados de censura, que ele foi o cineasta brasileiro mais censurado”, explica.
Entre as descobertas, Barcinski ressalta os métodos de produção de Mojica. “A gente está hoje acostumado com Lei Rouanet, filmes bancados pelo governo. A gente imagina a arte cinematográfica como algo inatingível se não tiver dinheiro. Mojica criou um método pra produzir seus filmes. Criou uma escola de cinema em que dava aulas de interpretação. Selecionava a equipe de produção na escola, os alunos bancavam seus filmes, uma espécie de crowdfunding nos anos 1950 e 60. Ele fez um monte de filme assim, bancados por operários, empregadas domésticas, camelôs que pagavam pra poder atuar. É muito legal ver um diretor que não depende de governo e pode fazer tudo sozinho”, diz.

SÉRIE

O ator Matheus Nachtergaele na série Zé do Caixão.

André Barcinski é um dos roteiristas de Zé do Caixão, série que foi exibida no fim do ano passado e voltou à programação do canal Space, da TV por assinatura, no mês passado – todos os seis episódios foram exibidos em sequência. Mojica é interpretado pelo ator paulistano Matheus Nachtergaele, que sugere que “é impossível avaliar o grau de influência do Zé do Caixão”. “Desde que me lembro da vida, havia Zé do Caixão, Carmen Miranda, o Jeca de Mazaroppi… São seres da brasilidade cinematográfica, da formação do imaginário da gente. Figuras arquetipais e fundadoras de nós, atores e cineastas do Brasil. Zé do Caixão é o niilismo tupiniquim, terror às vezes risível, mas sempre perturbadamente cruel e sarcástico”, avalia.

O ator percebe na trajetória de José Mojica aspectos que transcendem seu principal personagem. “Creio que o Mojica, além de criar o Zé do Caixão, o que por si só é absolutamente genial, soube como poucos, a cada etapa de sua vida e arte, na alegria e na tristeza, comunicar-se fortemente com o povo do País”, diz Matheus. “Sua obra, além de inaugurar o gênero de terror aqui, foi se adaptando às mudanças do Brasil, e tornou-se absolutamente popular. Mojica fez filmes como O despertar da besta (1969), que pode agradar e emocionar o mais intelectual cinéfilo do mundo, até chanchadas de sexo, para voyeurs de cinemas de quinta categoria. Tornou-se obra em seu Zé do Caixão, e um fenômeno midiático a ser estudado!”, destaca.

FRASE

“Não há mentira em Mojica. Há safadeza, maldade ingênua e muito amor. Ele é seu Zé do Caixão. É um cineasta brasileiro de ponta, e também um homem amoral. É machista e carinhoso. Cruel e engraçado. Genial e ignorante. Um artista com os dois pés na ‘jaca da vida’. Eu amo o Sr. José Mojica Marins”, Matheus Nachtergaele, ator.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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