Zé – Samarone Lima

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Samarone Lima nasceu na cidade do Crato, interior do Ceará, em 1969. É jornalista, cronista e poeta. Por duas vezes foi finalista do Prêmio Jabuti (nas categorias reportagem e poesia) e foi o segundo colocado no Prêmio Brasília de Literatura.

Livro: Publicado em 1998, esse livro-reportagem que marca a estreia de Samarone Lima.

Tema e Enredo: O livro registra a trajetória do mineiro José Carlos da Mata Machado, militante político, membro da Ação Popular, que foi preso, torturado e assassinado no Doi-Codi do Recife.

Forma: A narrativa é fluida e de rápida comunicação. No entanto, ela se revela distante do objeto narrado. Em vez de mostrar o que aconteceu, ela apenas diz o que ocorreu. O que termina por não gerar um efeito de ambientação.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Um Zé contra a ditadura

No livro-reportagem , o jornalista Samarone Lima registra a trajetória do mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, militante do Ação Popular que foi preso, torturado e assassinado pelos militares no Doi-Codi do Recife em 1973. A narrativa contempla desde o encontro dos pais de José Carlos (o professor Edgard Godói da Mata-Machado e Yedda Santos Novais) até a sua prisão e a luta judicial da família para poder enterrar o seu corpo. Pelo fato de ser filho de um deputado federal com mandato cassado depois do AI-5, por conta do seu envolvimento com a política estudantil e pelas coincidências históricas; a vida de José Carlos se revela uma interessante perspectiva para a observação das sombras projetadas pelo golpe militar no Brasil em 1964.

Afinal, nesse mesmo ano, José Carlos entrava para a Faculdade de Direito da UFMG, onde formou o Grêmio dos Alunos da Turma de 1964 (GAT-64) e logo se alinhou à Ação Popular, organização criada na Juventude Universitária Católica em 1962 e que vinha se afirmando como uma das principais potências do movimento estudantil, elegendo três presidentes consecutivos na UNE nos anos 1960. Enquanto temos acesso a fatos da vida particular de José Carlos, como a relação familiar, o desempenho escolar no Colégio Dom Silvério, seu interesse pelas técnicas de guerrilha durante o serviço militar no CPOR e as confrarias no restaurante do Albamar com os colegas da Faculdade de Direito na UFMG; no pano de fundo o desenrolar do golpe, com a instauração da censura, o fechamento do Congresso Nacional, a cassação dos deputados e a instauração do AI-5, com prisões e práticas de tortura e assassinatos.

Seguindo a ordem cronológica (só desvirtuada no primeiro capítulo que funciona como um prólogo), nessa costura proporcionada pela vida de José Carlos e os rumos da ditadura, Samarone Lima registra fatos históricos importantes para o país, a exemplo da passeata em Belo Horizonte motivada pela morte do estudante Edson Luís no Rio de Janeiro (quando José Carlos foi preso pela primeira vez) e do desastroso Congresso da UNE em Ibiúna (interior de São Paulo), que resultou na segunda prisão de Zé e mais cerca de mil estudantes. Nesse trajeto biográfico ainda é possível observar como ocorriam as articulações políticas, as estratégias de atuação dos militantes e dos militares, as dificuldades nos anos de clandestinidade quando José Carlos chegou a passar fome em Fortaleza, o espírito de solidariedade da época, os sopros do desbunde do grupo de estudantes de medicina Universidade Livre que acolheu o militante em Recife e das práticas de ameaça, tortura e ocultamento de cadáver do regime militar.

Preso pela última vez em 1973 em São Paulo – por conta de Gilberto Prata (irmão de Madalena e cunhado de José Carlos), que após ser preso e ameaçado passou a trabalhar para os militares na perseguição aos líderes da Ação Popular – José Carlos foi torturado até a morte no Doi-Codi do Recife. Sua morte foi divulgada pelos militares como um suposto assassinato por um colega de José Carlos, que logo se revelou uma grande mentira no confronto com os relatos de tortura no Doi-Codi, os indícios de violência no corpo (com dedos quebrados e ausência de coro cabeludo) do militante mineiro e da ausência de testemunha sobre o fantasioso crime que teria ocorrido na Avenida Caxangá.

No entanto, o mérito pela pesquisa e pela importância do registro histórico não se estende às escolhas de Samarone Lima na hora de narrar essa história. Embora tenha cumprido o seu papel de jornalista registrando a trajetória de José Carlos e o momento político conturbado do Brasil; a supressão de detalhes, investidas psicológicas e descrições tornam os acontecimentos narrados distantes do leitor. Com exceção dos momentos de fuga e da prisão de José Carlos, onde a tensão natural desses fatos e indignação gerada pelos abusos dos militares provocam catarse; a impressão é que estamos lendo um relatório ou um resumo biográfico do militante mineiro. Uma coisa é dizer o que aconteceu, outra é mostrar como ocorreu, transmitindo sentimento e emoção.

Outro problema de ordem estética que observei no livro foi o excesso de redundância. Há casos em que a narração do autor diz uma coisa e logo em seguida, quando se abre o travessão para indicar a fala de algum personagem, lê-se exatamente a mesma informação, sem qualquer acréscimo de conteúdo. Em termos de conteúdo, talvez por alguma dificuldade na apuração, não fica claro como era a atuação de José Carlos na Ação Popular. Apesar da sua importância ser comprovada pelos cargos de vice-presidente da UNE e de dirigente nacional da Ação Popular, os relatos do livro revelam apenas serviço burocrático por parte de José Carlos, com reuniões e mais reuniões. Um fato que entra em contradição com outras passagens do próprio livro, numa das falas de Márcio Borges, recordando conversas com o Zé: “ele nos narrou sua odisseia desde os dias em que entrara para a clandestinidade, embrenhara pelo sertão brasileiro, tornara-se guerrilheiro. Falou de ataques a napalm, comunidades rurais liberadas, milícias populares” (p. 167).

Mas o fato é que a história de José Carlos Novais da Mata Machado é tão forte e simbólica que esses problemas de ordem estética não inviabilizam nem desmerecem a leitura de . Pelo contrário, neste ano em que se relembra os 50 anos do golpe militar no Brasil, a leitura do livro deve ser incentivada, tanto para mostrar a importância das conquistas democráticas alcançadas pelo Brasil como para evidenciar problemas que o país infelizmente ainda não superou, como as práticas militares de execução, tortura, difusão de mentiras e ocultamento de cadáver que agora assistimos por parte da polícia.

 Lido em agosto de 2014

Escrito em 17.08.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Conheci Samarone quando o entrevistei para um trabalho da faculdade. Já como jornalista, entramos em contato novamente em eventos, por conta do lançamento da coletânea A cabeça do futebol e de Viagem ao crepúsculo, e devido ao seu trabalho como assessor do escritor Ariano Suassuna. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Zé: José Carlos Novais da Mata Machado, uma reportagem

Samarone Lima

Editora: Mazza

1ª edição, 1998

224 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Já não importavam tanto o corpo moído de pancadas, os choques elétricos. Estava impressionado com a imagem daquele jovem militante, quase morto, mas com forças para deixar sua mensagem. Não precisou fazer esforço para lembrar: José Carlos Novais da Mata Machado, dirigente nacional da APML.” (p. 15)

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Pesquisa

A pesquisa que originou o livro-reportagem Zé foi iniciada quando Samarone Lima ainda era estudante de jornalismo, usando a trajetória do militante José Carlos da Mata Machado como seu projeto de conclusão de curso.

Trilogia

e Clamor fazem parte de um projeto de trilogia sobre a ditadura. O terceiro livro, ainda em processo de escrita, terá como tema a bomba que explodiu no Aeroporto dos Guararapes.

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Do mesmo autor

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Estuário – Samarone Lima

Viagem ao crepúsculo – Samarone Lima

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Entrevista

Entrevista de Samarone Lima ao Vacatussa (agosto de 2014)

Links relacionados

Blog do autor: Estuário

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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