5 perguntas para Ana Estaregui

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Ao aceitar o convite para participar da coleção Jota, lançada pela e-galáxia; a escritora Ana Estaregui se viu diante do abismo da dúvida, desafiada a atravessar um terreno cheio de buracos, tema sobre o qual deveria escrever cerca de 40 textos e que virou o título do livro. Nesta entrevista, ela falar sobre Buracos, diz como a limitação imposta logo se reverteu em estímulo criativo, explica onde encontrou tanta inspiração para preencher os buracos, conta porque resolveu misturar ficção com gêneros textuais funcionais e da importância da forma como elemento discursivo.

buracosTHIAGO CORRÊA | Buracos integra a coleção Jota, que é inspirada no grupo francês Oulipo e tem como linha norteadora o estabelecimento de certas limitações como uma forma de instigar a criação. Qual foi a regra do jogo que foi apresentada a você para a criação do livro Buracos? Como foi a experiência? Essa limitação mais ajudou ou atrapalhou na hora de escrever o livro?

ANA ESTAREGUI | A Noemi Jaffe, que edita o Selo Jota com o Tiago Ferro, me convidou para integrar o grupo com a proposta de que eu escrevesse vários textos curtos sobre o mesmo tema, o buraco. Ela não especificou como deveria ser a forma dos textos, mas disse para eu produzir cerca de uns quarenta mini textos sobre esse assunto e me deu um prazo de uns quatro meses para isso. Eu aceitei. Imediatamente comecei a pensar sobre como seria o processo. Lembro que a primeira coisa que fiz foi jogar no Google imagens a palavra buraco pra ver o que aparecia e ali já deu pra obter alguns pontos de partida: apareceram acidentes geográficos, buracos negros, pupilas, buraco de fechadura, olho mágico, buracos cavados por presidiários em penitenciárias, poças d’água, cavidades do corpo humano, etc. Ou seja, o que pareceu num primeiro momento ser um fator limitador se mostrou, na verdade, ser uma estratégia metodológica muito eficaz de produção de texto, pois me obrigou a esgotar as possibilidades do meu próprio repertório para produzir variações do mesmo assunto. E, depois, de começar a criar as mini narrativas com cada um deles.

Eu adorei participar da experiência. Acho que se tivesse tido mais tempo daria pra ter produzido mais um monte deles.

TC | O livro é composto por 41 textos que variam a perspectiva sobre o tema buraco. Em meio a contos, há também conceitos científicos, anúncios, trajetos de GPS, relatos de recuperação de mastectomia, descrições de banda…. reunidos como uma espécie de almanaque sobre buracos. Como foi o seu processo de preparação ou pesquisa para reunir esse material?

AE | Eu fiquei meio obcecada pelo tema do buraco. No começo eu ficava feliz quando descobria uma possibilidade nova, um buraco novo pra escrever sobre. Depois fui vendo que tinha mais a ver com o que eu poderia tratar como um buraco também, aí comecei a incluir alguns buracos mais abstratos também, espécies de “buracos psicológicos”, como num texto em que escrevi sobre um episódio de uma menina realiza um aborto ou usar expressões como “estar no buraco”.  Aí acho que foi um segundo momento de descoberta de ver o quanto era possível produzir e inventar.

TC | Que cuidados você tomou para transformar textos, digamos, funcionais em literatura?

AE | Olha, não estou muito certa de que eu tenha tomado esse cuidado. Eu acho que como se trata de um projeto redondo, no sentido de que ele todo gira em torno do mesmo eixo, eu me permiti inserir trechos que podem ser considerados não literários, como no caso de algumas informações técnicas, anúncios reais que extraí de jornal, informações do Wikipédia, essas coisas. Acho que o projeto deve ser olhado como um todo e não apenas por suas partes isoladas, até porque alguns contos e diálogos são realmente muito curtos. Pessoalmente, eu gosto muito dessa possibilidade do não literário, do que pode ser esticado, uma espécie de limite da ficção. Acho que esse fenômeno acontece muito nas artes visuais, por exemplo. E talvez eu tenha me sentido autorizada a fazer esse tipo de inserção depois de ter lido o livro do Ruffato, Eles eram muitos cavalos, em que ele inclui no meio dos contos receitas de banho de ervas, horóscopo diário, cartas, descrições super objetivas do espaço, etc.

TC | Em boa parte dos contos você trata os personagens apenas pelas iniciais (f., s.,  j.,  d., m….). Por quê?

AE | Esse recurso não é novo na literatura. O Kafka já fazia isso, o Juliano Garcia Pessanha faz, a Paloma Vidal faz isso em poesia também. Acho que usei esse recurso nos meus contos do Buracos quando não queria que o nome tivesse um peso tão determinante num conto tão curto. É quase como usar apenas pronomes para se referir aos personagens (chamá-los apenas de “ela”, “ele” ou de “a mãe”). Acho que os nomes evocam contextos decisivos e não era o que eu queria naquele momento. Você impregna a personagem se chama ela de Olga, de Maria ou de Kelly.

TC | No episódio 23, a referência que você faz ao buraco se dá através da forma, deixando espaços em branco para evidenciar a passagem do tempo. Queria que você falasse sobre o processo de criação desse conto e sobre a forma enquanto elemento discursivo, não apenas estético.

AE | Acho que isso tem a ver com a minha formação principal, que é em artes visuais e não em letras. Por algum tempo, pesquisei os chamados livros de artista e os livro-objetos e cheguei a produzir alguns livretos independentes de pequenas tiragens (livro-imagem, livro-performance). Nesse episódio 23 eu tentei fazer a demonstração visual dos buracos e fui deixando espaços em branco da “geladeira” na medida em que o tempo ia passando no conto, até sobrarem poucas coisas disponíveis como um açucareiro, uma forminha de gelo quase vazia. Acho que essas soluções são válidas e podem ser interessantes, mas precisam ser usadas com certa consciência e não apenas aplicar o recurso pelo recurso pra não ficar à toa. No caso do Buracos, eu achei que era um espaço que permitia esse tipo de experimentação pois a proposta do livro era essa de espremer as possibilidade sobre um mesmo tema. Recentemente, comprei o livro do João Carrascoza, Caderno de um ausente, onde vi que alguns espaços em branco vão aparecendo ao longo do texto. Ainda não li o livro, mas tenho a impressão de que a proposta gráfica parece coerente com a sinopse do livro.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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