5 perguntas para Bruno Liberal

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Em maio de 2013, o nome de Bruno Liberal surgia no meio literário pernambucano. Anunciado como o principal vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura, ele se apresentava ao público leitor apenas como uma promessa, que só foi concretizada no ano seguinte com a publicação do volume de contos Olho morto amarelo. Com a chancela do prêmio, o economista de profissão passava então a ser reconhecido como escritor. Um ano depois, Bruno Liberal retoma o caminho da literatura com O contrário de B. para confirmar que a sua presença na literatura não é um acaso.

contrariodebTHIAGO CORRÊA | Bruno, você lançou seu primeiro livro, Sobre o tempo, com uma edição própria. Depois, Olho morto amarelo foi publicado pela Cepe por conta do Prêmio Pernambuco de Literatura. E agora você reaparece com O contrário de B. numa edição pela Confraria do Vento. Pra começar, queria que você falasse dessas três experiências. Em que essa experiência com a Confraria se diferencia em relação às outras duas?

BRUNO LIBERAL | No que concerne à criação, os dois primeiros livros nasceram de experiências totalmente intuitivas e sem qualquer tipo de preocupação. Nisso foram parecidos. O prêmio do Olho morto amarelo, no entanto, me jogou, literalmente, para uma posição muito pesada dentro do meio literário em Pernambuco. Pensei seriamente em sair correndo e me esconder na próxima esquina (ainda acho que deveria ter feito isso). Estou aprendendo a navegar em alto mar. Dentro desse contexto escrevo O contrário de B, primeiro livro onde, de fato, estou inserido no universo literário, pensando sobre literatura e os contos não são apenas criados por intuição, mas com uma reflexão sobre questões de ordem técnica e experiência estética. Entra, também, pela primeira vez, a figura de uma editora, a Confraria do Vento, com sua experiência e delicadeza no trato com o autor. O resultado está sendo gratificante.

TC | O tema da família aparece nos contos Pater familias, Hoje não, Não precisa gritar, Nós contra eles, Obedeça seu pai, Reza para gato morto, Distante e Esse último sorriso. Na sequência desses contos, você toca em diferentes aspectos que atingem o núcleo familiar (como a religião, a questão financeira, o desejo de aprovação social), compondo um mosaico sobre o tema. Explica pra gente: o que te atrai nesse tema?

BL | Tenho dito que escrevo sobre o que me incomoda e atormenta. As relações familiares me atormentam. Observo comportamentos extremamente egoístas se desenvolvendo como um Câncer na nossa sociedade e a facilidade de comunicação, paradoxalmente, ao invés de revelar essa tendência, ajuda justamente a escondê-la em porões cada vez mais subterrâneos. É preciso falar disso, despertar sentimentos, sensibilizar as pessoas. A família é um fundo inesgotável de histórias e com alta complexidade emocional.

TC | O livro começa com os contos Pater familias, que pra mim são os melhores momentos do livro. Por que você resolveu manter o mesmo título para eles? Foi mais por uma questão de continuidade, para dar uma sequência à história (já que em ambas você parte da história de uma mulher que começa a perder a memória), ou como uma forma de evidenciar a possibilidade de variação?

BL | Os dois contos foram pensados como uma mesma realidade. Um paralelismo. Uma vida que aconteceu e, insatisfeita, desejaria ter algum evento alterado. E se eu não tivesse feito isso? E se eu tivesse casado com aquela outra mulher? Essa realidade paralela revela direções diferentes, porém a inevitabilidade da solidão é palpável. Os dois contos estão ligados por esses vetores.

TC | Nesses contos, e em outros do livro, você explora a técnica da variação de perspectiva, como uma forma de relativizar e contrapor as situações e personagens, dando mais complexidade às histórias. Como você chegou a essa forma? E por quê, quais o benefícios você acha que ela trouxe aos contos?

BL | Gosto de criar um contraponto à narrativa para tentar introduzir camadas ou planos onde possa haver uma outra experiência de compreensão. É uma estrutura criada para relativizar as escolhas dos personagens e aprofundá-las. Uma forma a mais de criar pontes emocionais dentro de uma banda maior de experiências. Mas todo livro é uma tentativa, O contrário de B é uma tentativa que apenas o tempo, com seus leitores escassos, irá dizer se foi bem-sucedida.

TC | Em Distante e O contrário de B. você traz personagens periféricos, em condições sociais precárias. Que cuidados são necessários para trabalhar com personagens que se encontram em outra realidade social que você?

BL | É difícil se colocar no lugar de outro olhar, principalmente quando esse olhar foge de uma realidade semelhante. É preciso ser genuíno ao se propor esse papel, tentar sentir as mesmas dores. Escrever é uma experiência puramente de sensibilidade. Não adianta técnica se não houver um olhar sensível para o outro. E o escritor é um refém do seu olhar, quanto mais distante de si melhor. A literatura consegue sobrepujar essa barreira. Por isso ler e escrever são experiências tão ricas em entender o próximo.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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