5 perguntas para Flavio Cafiero

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Concluindo a série de entrevistas com os autores que participaram da coleção Jota, conversamos com o escritor Flavio Cafiero. Ele foi a cobaia do projeto, responsável por dar o pontapé inicial ao selo com o livro O capricórnio se aproxima (e-galáxia, 2014). E, como cobaia, ele foi submetido a testes. Diferente dos demais, Flavio Cafiero teve que seguir regras mais rígidas, que foram além da ordem temática, como a proibição de adjetivos e o uso de todas as letras do alfabeto em cada capítulo. É o único também que optou por uma narrativa longa, conduzida pelo taxista João, numa história que segue pelas tangentes na ruas e avenidas do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, ele fala sobre o desafio e explica como as limitações se transformaram em opções criativas.

fc-capricornioTHIAGO CORRÊA | Esta pergunta estou repetindo para todos os autores que participaram da coleção Jota. Qual foi a regra do jogo que foi apresentada a você para a criação do livro O capricórnio se aproxima? Como foi a experiência? Essa limitação mais ajudou ou atrapalhou na hora de escrever o livro?

FLAVIO CAFIERO | O meu jogo proibia a utilização de adjetivos e obrigava o uso de todas as letras do alfabeto (incluindo k, w e y) em cada um dos capítulos de no máximo 500 palavras. Eu já estava habituado a restrições na criação dos contos que escrevi durante minhas aulas de escrita criativa com a Noemi Jaffe. Elas não atrapalham, pelo contrário, as obrigações deixam você em estado de atenção contínua e levam o texto para caminhos que não seriam escolhidos sem a ação desse fórceps. É como uma rede de sinapses com alguns acessos proibidos, alguns neurônios interditados. Meu personagem central, por exemplo, virou taxista no fluxo da escrita, não era o plano inicial. Em função da necessidade de utilização das letras, incluí nomes de ruas com Y ou W na narrativa, e daí o protagonista entrou no taxi e não saiu mais.

TC | Em relação a regra da proibição dos adjetivos, você levou ela em consideração desde o início ou foi mais um trabalho posterior, de edição do texto? Essa experiência te fez repensar sobre a escrita, como?

FC | Bloqueei os adjetivos desde o início. Quando escapava um, já cortava. Alguns ficaram pelo caminho e eliminei na revisão. Mas depois de alguns parágrafos você já entra no jogo. Trabalhar sem adjetivos foi uma libertação. A ausência me levou a focar ainda mais na ação, e não na caracterização. Isso tornou a escrita mais leve e ágil. O resultado foi um texto muito gostoso de ler. Meu texto é geralmente muito denso, sempre foi assim, e as lacunas deixadas pelos adjetivos funcionaram como bolsas de ar, deixando as palavras e as ideias mais soltas.

TC | Por ser o protagonista um taxista, a narrativa tem uma ligação muito forte com o Rio de Janeiro, indicando cenários e rotas. Queria que você falasse da sua relação com esses lugares e se você precisou fazer algum tipo pesquisa ou visita para ambientar melhor a história.

FC | Moro em São Paulo, mas sou carioca. E meu próximo romance se passará no Rio, a cidade será uma espécie de antagonista na trama. Como minha cabeça já estava voltada para aqueles lados, ambientar O capricórnio se aproxima por lá foi quase automático. Quando vi, já estava pesquisando ruas da Tijuca e de Copacabana no Google Maps. O texto acabou ficando com um jeitão carioca, um sotaque embutido nas falas. E, como os diálogos do livro são todos indiretos, isso acabou impregnando o texto inteiro. É surpreendente ver como o local onde a história se passa consegue influenciar tanto na linguagem.

TC | Uma das coisas mais legais do livro são os termos usados pela família do João como uma forma de camuflar a conversa, como “trabalhar no banco” para falar de homossexualismo, “pudim de pão” para falar de sexo e “capricórnio” como eufemismo de doença. Como você chegou a esses termos? Como foi a experiência de escrever sobre algo pelas tangentes? Que cuidados você tomou para não entregar de vez o significado e ao mesmo tempo não conduzir o leitor para fora dos trilhos?

FC | Não tenho certeza sobre a gênese dessa ideia, mas talvez tenha nascido da atmosfera de restrições. Camuflar os assunto proibidos para as crianças é uma espécie de restrição familiar, e muitas famílias criam seus termos particulares, suas referências internas. No caso da família do livro, levei isso ao extremo, e me diverti demais. Escrever pelas tangentes adicionou muito humor ao meu texto, dando ao livro uma camada agridoce. Quanto aos cuidados a que você se refere, é difícil dizer. É pura técnica narrativa, puro artifício, esconder sem bloquear, indicar sem explicitar. É questão de dosagem, é preciso evitar as reiterações e, ao mesmo tempo, fugir do hermetismo. Não sei exatamente como faço isso, mas é uma característica pessoal, sempre gosto de dosar bem as informações, deixar o leitor entrar com o próprio esforço, não dar nada de bandeja. Todos os meus textos são assim.

TC | Embora pareça apenas uma brincadeira de linguagem, essa estratégia das tangentes talvez sirva para explicar o comportamento dos personagens (que preferem a fuga ao embate) e o da própria narrativa (que parece nos conduzir pelas beiradas, fazendo com que fatos importantes nos cheguem com surpresa). Essa relação entre o jogo de linguagem com os personagens e a narrativa era intencional? Se sim, quem veio primeiro? Quem influenciou quem?

FC | Essa relação não era intencional. Foi surgindo ao longo da escrita. O livro inteiro foi escrito com o mínimo de planejamento, permitindo que fosse conduzido pelas restrições. A partir do primeiro capítulo as escolhas mais conscientes foram sendo feitas. O tema da infantilização do mundo me interessa muito, minha geração é formada por adultos-adolescentes, o mundo está se transformando numa grande Disney, e o Capricórnio acabou tocando fundo nesse assunto: o protagonista é um pai de família que não sai da casa dos pais e vive à sombra da infância. De certa forma, ele vive a própria vida pelas tangentes, como um moleque que foge da bronca. O mundo está mais jovem, e isso é bom. Mas perdemos a mão, está tudo adolescente demais, e a adolescência é insuportável.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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