5 perguntas para Leonardo Padura

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Ficções ocultas nas brechas da realidade

Hereges, novo livro do escritor cubano Leonardo Padura, parte de um enredo mínimo: um policial investiga o que aconteceu com um quadro pintado por Rembrandt (1606-1669), que reaparece em 2007, em um leilão em Londres. O autor parece encontrar, nas grandes distâncias, amplas possibilidades de narração; Padura observa a evolução gradual de fatos separados por séculos (1648-2007) e fronteiras (Polônia e Cuba) e oferece detalhes e cores, emoções e sentimentos, a eventos que se tornam nebulosos com os anos e as lembranças desbotadas. O autor se apropria da realidade e de fatos históricos para formar uma narrativa de ficção que testemunha aspectos fundamentais da liberdade, da política e da memória. Nesta entrevista, o autor comenta sua relação com o jornalismo e as distinções entre história e criação ficcional.

 

heregesHUGO VIANA – Na nota do autor, você escreve que “a história, a realidade e o romance funcionam com motores diferentes”; poderia detalhar essa ideia?

LEONARDO PADURA – Os acontecimentos históricos ocorrem na realidade e têm (ou não) sua própria lógica, sua maneira de se conectar e desenrolar, que não é dramática, é real, condicionada pela causalidade e casualidade. Em troca, na novela todo o desenvolvimento da trama responde a uma vontade do autor e a uma necessidade que se impõe a esse autor – a exigência dramática, a criação de um devir novelesco. Por isso, ao levar a história ao território da novela, deve-se fazer pensando como um escritor e não como um historiador: isso significa maior liberdade, mas é uma responsabilidade diferente, pois o objetivo não é escrever a História, e sim contar uma história.

HV – No livro, você trabalha a partir de eventos da realidade. Como entende o processo de transformar a história em criação literária?

LP – Pegando da história o que me serve para criar a ficção. Submeto a história primeiro a um estudo e logo a uma seleção de seus elementos, realidades, comportamentos que me são úteis para forjar o argumento de ficção e transmitir minha mensagem a partir de uma postura artística, estética, novelística. Na criação literária, o centro de interesse são os personagens, e sobre eles colocamos o desenvolvimento da história.

HV – Você também é jornalista; identifica alguma experiência adquirida com a reportagem em sua produção ficcional? Há alguma fronteira que separe essas duas formas de criação?

LP – O jornalismo me serve para me conectar diretamente com a realidade, para tentar uma primeira compreensão de como ela funciona, por que ela se comporta de uma determinada maneira. Isso me nutre como pessoa e também como escritor. Faz parte de minha experiência humana e intelectual. Mas o jornalismo tem uma esfera de ação imediata, enquanto a ficção se faz por caminhos menos diretos. Sobre as fronteiras, há muitas: a novela é o reino da liberdade, enquanto o jornalismo responde a códigos mais estritos… como o de respeitar a verdade factual ou, o que mais me incomoda, que é a necessidade que me obriga a escrever em 3000 caracteres uma história que me encantaria poder contar com muitos detalhes, com mais vontade e estilo…

HV – Como percebe a escrita de um romance? Qual a importância você dá ao ritmo, ao desenvolvimento de personagens e envolvimento emocional?

LP – O ritmo depende de muitos componentes literários, mas há dois que me interessam muito: a própria redação, digamos o estilo; e a estrutura, a forma da novela. Meu estilo é um pouco mais lento, me detenho nos detalhes, desfruto dos adjetivos, trato de ser sugestivo nas sensações que pretendo transmitir ao leitor. Em algumas ocasiões acelero a marcha, porque a intensidade dos acontecimentos assim exigem, e se produz uma alteração no ritmo. E a estrutura é a forma em que se manifesta, de maneira visível, esse ritmo, esse estilo. Ir de um tempo a outro, voltar sobre uma ideia ou acontecimento, montar em paralelo dos feitos, replicar alguns… com tudo isso se consegue esses efeitos de ritmo que são também uma maneira de se aproximar o leitor do texto.

HV – Como chegou a essa estrutura, misturando tempos e aproximando vozes de diferentes personagens? Em que sentido essa construção serviu aos seus interesses para o livro? 

LP – A estrutura de Hereges é simples e ao mesmo tempo complexa. São quatro livros, e nos três primeiros os feitos narrados são independentes, têm uma dramaturgia própria, seu desenvolvimento e resultado. Assim, esgoto cada uma dessas histórias. E no quarto livro deixo que se façam visíveis os fios que conectam cada um dos anteriores… e se complete a soma: então, o leitor está em posse de toda a informação que lhe permite armar a totalidade da novela, unir esses blocos que aparentemente tinham pouca relação entre si.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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