5 perguntas para Samir Mesquita

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Para integrar a coleção Jota, o escritor Samir Mesquita recebeu a missão de escrever várias vezes uma história banal, dessas que acontecem sempre, mas que parecem invisíveis de tão impregnadas na rotina. A partir do encontro entre duas pessoas enquanto cruzam uma rua em sentidos contrários, Samir Mesquita construiu o livro Clichê. Nesta entrevista, ele fala sobre o desafio que enfrentou, explica os cuidados que tomou para não deixar o livro monótono e revela de onde tirou tantas ideias para escrever as 40 variações sobre a mesma situação que compõem Clichê.

 

sm-clichêTHIAGO CORRÊA | Essa pergunta eu fiz a Ana Estaregui, mas acho que vale repetir, já que suas obras foram frutos da coleção Jota. Qual foi a regra do jogo que foi apresentada a você para a criação do livro Clichê? Como foi a experiência? Essa limitação mais ajudou ou atrapalhou na hora de escrever o livro?

SAMIR MESQUITA | O desafio proposto a mim pela escritora Noemi Jaffe, coordenadora o selo Jota, foi desenvolver um livro com uma mesma história banal escrita das mais diferentes formas. O primeiro desafio então, na verdade, era definir qual seria esta história banal com a qual trabalharia. Foi aí que pensei nesta situação de duas pessoas atravessando a rua e que, por um instante, suspeitam que se conhecem. Uma situação que acredito que muitos de nós já viveu, que o cinema já retratou algumas vezes e que, por alguma razão, achei que seria interessante explorar. Definido isto, era então hora de imaginar, reinventar e escrever.

Sobre a limitação, acredito que haja diferentes formas de encarar esta questão. Um exemplo bem simples disso: imagine que você está caminhando por uma estrada e, de repente, há uma enorme pedra obstruindo a passagem. Você pode simplesmente dizer “não dá mais pra passar por aqui” e voltar, ou olhar para a pedra e dizer “eu não posso continuar caminhando como antes, mas posso passar por cima da pedra, pela direita, pela esquerda, ou ainda, cavar um túnel e passar por baixo dela.”  Um obstáculo é sempre também um multiplicador de possibilidades.

TC | Você teve algum tipo de preparação antes de escrever o livro? Quais? Pergunto em termos de pesquisa, como consulta a cenas semelhantes em outras obras, a sensação de reminiscência, visita a alguns cenários específicos.

SM | O livro foi escrito em dois meses, então, não houve muito tempo de preparação e pesquisa para construí-lo. Claro que li o livro de Raymond Queneau Exercícios de estilo em que o desafio era baseado. Mas não queria seguir a mesma direção dele, em que a ênfase era na variação de linguagem entre um texto e outro. O que eu fiz foi me concentrar todos os dias algumas horas de manhã para escrever e andar sempre com um caderninho para anotar possíveis ideias. Confesso que até o 15º conto, tudo fluiu muito fácil, era sentar e escrever. Mas depois, era sempre a pergunta: “e agora?”. O interessante foi que tudo o que eu ia lendo, assistindo e vivendo, eu utilizava para a construção dos textos de uma maneira natural. Um diálogo que eu ouvi de um casal em um mesa de restaurante, virou um conto. Uma reportagem que um amigo postou, acabei me apropriando para construir outro texto. Uma ideia de personagem que tinha guardada e que nunca foi pra frente acabou ganhando sua forma. E assim, os contos foram surgindo.

TC | O livro reúne 40 textos a partir de uma mesma cena, que é o “encontro” de duas pessoas, em sentido contrário, ao atravessar a rua. Queria que você explicasse quais os cuidados e que recursos você usou para não deixar que a repetição dos mesmos elementos tornasse o livro cansativo?

SM | Esta era uma preocupação desde que li o desafio que a Noemi me propôs: não tornar o livro chato (e parando para pensar agora, acho até que tenha vindo daí a ideia do título do livro). E a única solução que eu vi era talvez também a única: escrever, escrever e escrever. Porque há no exercício da repetição algo libertador que muitas vezes ignoramos. Só quando repetimos muitas vezes uma ação, ou pensamos sobre um mesmo assunto, é que conseguimos enxergar aquilo de diferentes ângulos. E Clichê é exatamente isso e sobre isso. Cada exercício de escrever a mesma história era olhar para ela de um modo diferente, em um contexto diferente, permitindo explorar assuntos diferentes. Assim, os personagens foram se multiplicando e os textos foram ganhando suas formas: um mais narrativo, outro mais poético, ou com tom reflexivo, outros em forma de diálogo, de entrevista, de reportagem, e até de uma mini epopeia.

TC | Embora você sempre trabalhe em cima da mesma situação, que envolve o “encontro” de duas pessoas atravessando a rua e a referência ao nariz de umas das pessoas; ao longo da leitura a gente percebe algumas variações, como a alternância do sexo dos dois envolvidos, o cenário. Que lógica você seguiu para estabelecer que elementos deveriam ser fixos e quais poderiam ser variáveis?

SM | O mais importante para mim era manter a ação fixa, como você destacou: duas pessoas que estão atravessando a rua, por um instante acham que se conhecem (especialmente porque uma delas reconhece o nariz da outra), mas continuam a travessia. Uma vez tendo isso fixo, todos os outros elementos podiam ser variáveis: pela perspectiva de quem a ação iria ser narrada?, quem seriam os personagens?, onde a ação aconteceria? Assim, no primeiro conto do livro esta cena aparece em meio a uma aula de roteiro de cinema; em outro conto, a ação se passa durante um balé russo. Em alguns contos, a travessia é a ação central do texto, em outros ela é apenas parte, como em um deles em que a travessia da rua é usada pelo personagem que está sendo entrevistado como um exemplo para explicar o que é a morte para ele.

TC | No conto 29, você explora o recurso das colunas para evidenciar as posições dos personagens e suas perspectivas narrativas. Queria que você falasse como chegou a essa forma, explicasse como foi o seu processo criativo para construir esse conto.

SM | Para a construção deste conto, lembrei-me dos tempos da adolescência em que pesquisava e lia muita poesia concreta e até me atrevia a escrever alguns poemas. Como a ideia central dos contos sempre sugerem uma ação, um movimento, pensei em trabalhar com o espaço da página para sugerir este fluxo dos personagens: suas distâncias, a aproximação, o confronto e novamente o distanciamento. Um exercício de forma, mas pensando em ressaltar alguns aspectos do texto, e principalmente as sensações de um personagem em relação ao outro.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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