6 clássicos da literatura para ler nas eleições

0
davidandgoliath

Davi x Golias versão Lego

 

 Nas últimas semanas, temos sido bombardeados por todo tipo de informações sobre as eleições. Colunistas declarando seu voto, papeis de campanha distribuídos nas esquinas, posts no facebook e no twitter, mensagens trocadas pela whatzapp… A política parece ter contagiado a todos. Por isso, esse post sugere alguns clássicos da literatura – e uma graphic novel adaptada de um clássico – cuja leitura de alguma maneira pode ser muito interessante durante a época das eleições. As obras escolhidas, porém, talvez não possam ser consideradas “políticas” de uma forma direta e isso foi proposital: a gente quer mostrar o quão rico e complexo um bom texto literário pode ser. Se você cansou de ler os mesmos petistas e tucanos e já terminou de reler pela terceira vez o seu exemplar de Guerra e Paz herdado da vovó, aí vai:

A história do rei Davi, contada em 1 e 2 Samuel com o epílogo em 1 Reis 1-2 – Se você acha que seriados como Game of Thrones e o 7×1 na Copa do Mundo são brutais, se prepare para ler/reler a Bíblia, em especial o Velho Testamento. Fogo caindo do céu, traições, personagens que amamos morrendo subitamente, reis loucos, monstros, decapitações e estupros… Entre as várias histórias bíblicas, uma das mais importantes é a do Rei Davi. Acompanhamos a vida do rei Davi de pastor de ovelhas até se tornar rei de Israel. Poeta (provável autor de belos poemas compilados nos Salmos) e guerreiro, Davi é mostrado em todas as suas qualidades e contradições. A linha de tempo é longa revelada na Bíblia é longa: da juventude até a velhice, quando é sucedido pelo seu filho Salomão. Temas como adultério, corrupção e abuso de autoridade (em certo episódio, Davi é responsável pela morte de um dos seus próprios militares a fim de ficar com a esposa dele), lutas fratricidas por poder e muito derramamento de sangue pontuam a trajetória do rei. No começo da narrativa, aliás, uma discussão fundamental em tempos de um Brasil marcado pelo fundamentalismo cristão: qual o papel de um sacerdote e da religião em um governo? A resposta, para quem tiver olhos para ler, vai ser mais ambígua do que padres e pastores gostariam que fosse.

Lazarilho de tormes, autor anônimo – Provavelmente um dos primeiros romances modernos europeus (se você o considera, como eu, um romance), esta obra-prima da literatura espanhola do século XVI é o trisavô dos personagens de Ariano Suassuna, por exemplo. Escrito como se fosse um depoimento ou um livro de memórias, o seu narrador, Lazarilho, é um jovem pobre que precisa usar de todas as artimanhas para sobreviver em uma sociedade excludente e hipócrita. O livro é dolorosamente engraçado e traça um painel muito vívido da sociedade do seu tempo. Autoritarismo de servidores públicos, hipocrisia de todas as classes sociais e até denúncias contra processos higienizadores nas cidades são alguns dos temas do livro.

Cândido ou O otimismo, Voltaire – Enquanto elaborava essa lista, fiquei pensando o porquê desse romance não sair da minha cabeça. Talvez seja pelo fato de que o jovem e ingênuo Cândido, por uma sucessão de azares, é forçado a viver uma série de peripécias por inúmeros países do mundo (incluindo o Eldorado, na América do Sul); na sucessão de eventos, o que desponta é o mal, a violência, a tirania e a hipocrisia, tudo isso sempre relacionado a uma crítica feroz a mercadores, políticos, sacerdotes e filósofos. Chama atenção na narrativa o seu tom de farsa e humor nonsense, quase como se assistíssemos a um desenho animado. Para Italo Calvino, aliás, o grande achado do romance seria “o acúmulo de desastres em grande velocidade”. Por fim, os personagens Pangloss e Martin, filósofos que segundo Italo Calvino dão “respostas insensatas a perguntas vãs”, são a cara de certa militância intelectual dos nossos tempos.

Justine, Guido Crepax a partir da obra do Marquês de Sade – O livro representante das histórias em quadrinhos na nossa lista é de um dos mestres do erotismo italiano: Guido Crepax, que adaptou uma das versões, a primeira, da vida de Justine, personagem criada pelo Marquês de Sade. Recordo que Sade me foi apresentado como um herói libertário, quase um precursor da Revolução Sexual dos anos 60; posteriormente, me falavam dele como um herói da defesa da ideia de indivíduo, ou como a Voz da Direita. Não é possível, contudo, cooptar politicamente Sade sem fazer um leitura redutora dele. Pelo contrário, Sade é a mais extrema das imaginações e o mais incômodo elogio ao crime. Em Justine, a natureza é indiferente aos homens e o exercício da virtude não traz à benévola protagonista nenhum benefício. Justine será violentada e humilhada por uma classe de homens e mulheres cujos excessos ficam impunes, porque é o próprio sistema – Estado, Moral, Religião – que permite e estimula o crime. E Crepax reconta a história desenhando elaboradas cenas nas quais sexo e violência não se separam, criando assim uma beleza terrível.

Esaú e Jacó, Machado de Assis – Machadão não poderia faltar em nossa lista. Sua ironia e pessimismo são ótimos antídotos para o clima eleitoral que tomou conta do país nos últimos meses. Por que brigam tanto os gêmeos Pedro e Paulo, protagonistas do romance? Lutam pela atenção de sua mãe Natividade e pelo amor de Flora? Sim. E lutam entre si politicamente, já que um apoia a monarquia e o outro, o republicanismo. Segundo José Guilherme Merquior, o pano de fundo histórico do romance é “a agonia do Império e os primeiros passos da República”. Mas os gêmeos parecem – com o perdão do trocadilho – tão iguais e seus objetivos tão semelhantes – poder e o amor de uma mesma mulher – que em tempos de polarização às vezes acrítica entre PT e PSDB, vale a pena o aprendizado do ceticismo machadiano.

Grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa – Clientelismo, formação de poder paralelo ao Estado de direito, relações de trabalho baseadas na violência, coronelismo, cooptação do espaço público pelo poder privado dos mais fortes e mais ricos, seca, demagogia, Deus e o Diabo: não estou elecando as pautas do horário eleitoral paulista ou nordestino, mas sim algumas das discussões políticas feitas pela obra-prima de Guimarães Rosa. Como se não bastasse a bela linguagem, as cenas de ação e a reflexão profunda sobre questões filosóficas, o debate sobre a organização política e social do Brasil é outras das camadas e possibilidades de leitura de um livro como Grande sertão: veredas. Personagens como Riobaldo, Medeiro Vaz, Joca Ramiro, Diadorim e Zé Bebelo, entre outros, podem ser lidos como metáforas de diferentes modos de liderança e mesmo de diversas propostas políticas para o espaço onde vivem. O demagógico Zé Bebelo, por exemplo, um autoproclamado agente “modernizador” em nome da República e dos interesses patrióticos, no fim das contas se revela movido somente por interesses pessoais de poder e riqueza. O episódio do seu julgamento, aliás, é um dos pontos altos do livro.

Compartilhe

Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

Comente!