A décima segunda noite – Luis Fernando Verissimo

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Shakespeare em verde e amarelo

Umas das principais características da pós-modernidade é o seu olhar crítico sobre o passado. Não à toa, vira-e-mexe nos deparamos com o nome do renascentista William Shakespeare (1564-1616), seja no cinema, teatro ou literatura. Neste fim de ano, o dramaturgo inglês volta a ser falado por conta do livro A Décima Segunda Noite, escrito por Luis Fernando Verissimo. O romance é o segundo volume da coleção Devorando Shakespeare, que já publicou Trabalhos de Amor Perdidos de Jorge Furtado e espera por Adriana Falcão para dar seqüência à série.

A proposta, lançada pela editora Objetiva, é fazer uma releitura da obra do autor inglês. Acostumado a escrever sob encomenda – já tendo participado de outras coleções de sucesso como a Plenos Pecados, Literatura ou Morte e Cinco Dedos de Prosa –, Verissimo não teve problemas em encarar o desafio de adaptar a comédia shakespeariana Noite de Reis.

Fez alguns ajustes, claro. Transformou o Conde Orsino no dono de uma rede parisiense de salões de beleza e os náufragos gêmeos Sebastian e Viola em Sebastião e Violeta, imigrantes brasileiros que tentam a vida na capital francesa. Mas, tirando os detalhes, a história original permanece a mesma. Continua uma comédia de desencontros amorosos com final feliz. Ou quase.

Orsino apaixona-se por Olívia, que não lhe dá atenção porque está de luto pela morte do irmão. Violeta perde-se do irmão ainda no aeroporto e, para conseguir trabalho, precisa se fingir de homem no salão Illyria com decoração brasileira de Orsino. A amizade entre os dois cresce e César (Violeta) cai de amores por Orsino. Mas este o faz de cupido, manda ele (ela) intermediar seu problema com Olívia, que, por sua vez, acaba se apaixonando por César (Violeta).

A confusão shakespeariana, por si só, já seria um prato cheio para o deleite dos leitores. Mas em se tratando de Verissimo, isso é pouco. O que faz de A Décima Segunda Noite uma releitura e não uma mera reprodução, são os detalhes. Em especial um adorno decorativo do Illyria, usado para dar um ar mais tropical ao salão. É através de Henri, um papagaio cinzento pintado de verde e amarelo, que Verissimo se apodera da história. Faz de Henri o seu interlocutor, o narrador não só dos desencontros, como também da sua linhagem de psitacídeo, trajetória e teorias literárias.

Sempre baseada em discursos – visto, ouvido ou inventado pelo papagaio – a narrativa discorre de maneira fluída, como numa conversa, onde a única voz existente é a de Henri, falando quase que ininterruptamente para um gravador. Só pára na troca da fita do gravador, fato que Verissimo usa para dividir o livro em capítulos. Uma técnica já empregada por ele com as descrições escatológicas de Dona Maria em O Jardim do Diabo e os sucos exóticos da Amazônia em O Opositor.

As características do autor, contudo, aparecem mais fortes nas digressões de Henri. Nelas, Verissimo se sobrepõe, aplica seu estilo, conecta-se de vez às suas obras anteriores. Revela os segredos da sua escrita com metalinguagem baseada nas teorias de Flaubert e ancora-se na realidade vinculando a trama a eventos históricos, como a visita de índios tupinambás ao rei da França, Henri II, em 1550. E, apesar da intricada rede de referências construída por Verissimo, tudo é escrito com o mesmo frescor e leveza das suas crônicas semanais.

Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2006
escrito em 03.12.2006

: : TRECHO : :
“Ah, saber escrever, poder segurar uma pena e traçar uma história no papel como um arabesco ou um teorema, com forma, estrutura e, principalmente, permanência, sem depender de gravadores, de fitas e de outros. É em momentos como este, e olhando o rosto de Violeta quando viajava sobre o seu ombro no metrô, imaginando como seria tê-la nos meus braços, que eu sinto não ser, nem digo um Flaubert, mas gente, só gente, em vez de um mero artifício narrativo.” (p. 24)

: : FICHA TÉCNICA : :
A décima segunda noite
Luis Fernando Verissimo
Coleção Devorando Shakespeare
Objetiva
1a. edição, 2006
149 páginas

: : LEIA TAMBÉM : :
A eterna privação do zagueiro absoluto – Luis Fernando Verissimo
O Jardim do Diabo – Luis Fernando Verissimo
O Opositor – Luis Fernando Verissimo

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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