A eterna privação do zagueiro absoluto – Luis Fernando Verissimo

0

Aviso logo, em se tratando de Verissimo, sou suspeito. Muito do que eu sou, muito do que minhas palavras são, deve-se a ele. Sem dúvida alguma Verissimo é o autor que mais li em minha vida, contabilizando dez livros no meu histórico de leituras, além das crônicas dominicais no Diário de Pernambuco, as charges na Bravo! e qualquer adaptação teatral de suas obras que passe por perto.

Sou tão fanático por Verissimo, que até quando ele não atinge minhas expectativas, eu me satisfaço. Imagine o peso que tiro das minhas costas quando isto acontece. Se nem Verissimo consegue sempre, por que diabos eu deveria conseguir?

Ler Verissimo é como achar caminhos mais curtos para tudo o que você deseja expressar. E o melhor é que essa economia de palavras não mutila, não interfere em sua fluência, nem implica em complexidade. É a simplicidade, a naturalidade com que Verissimo escreve que mais me impressiona. Seus textos parecem ter sido escritos sempre na primeira tentativa, possuem a espontaneidade do primeiro impulso. É como se não fossem revisados, sem preocupações com a repetição de palavras e sem o medo de usar os que’s. Ele os usa quantas vezes for necessário, mas de alguma maneira, consegue escondê-los nas frases. Ele tem o dom da invisibilidade.

A eterna privação do zagueiro absoluto reúne crônicas e alguns contos que se dividem em três grandes seções: futebol, cinema e literatura. Antes de comentá-las, abro espaço para o excelente trabalho editorial que saiu da mesmice com uma fonte tipográfica não-usual e com o formato quase quadrado do livro. Além, é claro, da belíssima capa.

A parte destinada ao futebol se subdivide em quatro grupos. No primeiro, Fome de Bola, estão crônicas em que Verissimo relembra com nostalgia o dilema ao ganhar uma bola de couro, o prazer de ter visto Domingos da Guia jogar, a época da Copa de 62 e as superstições e lendas que envolvem o futebol. São crônicas cheias de saudosismo que trazem sentimentos de uma época, surgidos através do futebol.
 
Como o título já diz, em O que elas tem a ver com isso é mostrado a incompatibilidade entre homens e mulheres, a partir do futebol. Em Homens em Campo e Um brasileiro na Copa é possível perceber como algumas crônicas são efêmeras, trazendo questões filosóficas do futebol que pertenceram a um passdo recente, mas que hoje não possui tanta relevância.

Assim pode-se re-visitar épocas como a da já longínqua Copa da França, em 1998, quando se discutia o dilema de se convocar Edmundo, as teorias da conspiração que sucederam a convulsão de Ronaldinho antes da final e ainda assistir o surgimento de Ronaldinho Gaúcho alguns anos depois.

Apesar do desgaste do tempo, em conjunto, estas crônicas possuem o poder de recriar uma época para nós, que dividimos nossas vidas em quatro e quatro anos, de acordo com a Copa do Mundo.

E Verissimo prossegue nessa intenção de reconstruir sua vida a partir de outros pontos de referência. Ao invés do futebol, o cinema de Kurosawa, Kubrick, Mastroianni e suas musas Catherine Deneuve e Martine Carol. Uma estranha sensação que tive nesta seção é que quanto mais recente é o tema das crônicas, mais descartáveis elas são.

A seção de literatura é menos vulnerável à ação do tempo, traz reflexões sobre a literatura de Hemingway, Joyce, Shakespeare, Lolita de Nabokov, Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e O tempo e o vento do seu pai, Érico Verissimo. Destaque para os contos Quando eu era invisível e Mar de Palavras.

Thiago Corrêa
lido em Fev./Mar. de 2004
escrito em 15.05.2004

: : TRECHO : :
“Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado? Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro técnico da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas. Todos os técnicos da seleção brasileira seriam, na realidade, prepostos de Deus, o que explica o seu ar arrogante e sua recusa em aceitar nossos palpites.” (p. 20, O Técnico)

: : FICHA TÉCNICA : :
A eterna privação do zagueiro absoluto
Luis Fernando Verissimo
Objetiva, 1a. edição
195 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!